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1994

A estreia na Série C

O Rio Branco disputou em 1994, pela primeira vez em sua história, uma divisão do Campeonato Brasileiro. Embora já tivesse jogado um torneio seletivo em 1991 que dava vaga à Série B de 1992, era de fato a primeira vez que disputava uma divisão nacional. O clube não via o campeonato nacional como uma prioridade em uma época na qual os torneios estaduais tinham mais importância para os clubes.

   Logo após o fim do Paulistão, em maio, o Rio Branco oficializou à CBF um pedido para disputar o torneio. Contratou treinador – Flamarion – e trouxe reforços modestos mesmo antes da CBF confirmar (22-8-1994) que o Tigre seria um dos seis clubes paulistas na Série C, ao lado de Juventus, Novorizontino, Santo André, Ferroviária e Ituano.

Vendendo ingressos pela primeira vez em reais (R$ 4 a inteira e R$ 2 a meia), o Rio Branco entrou em campo para estrear em uma divisão do campeonato nacional no dia 22 de setembro, uma quinta-feira, diante do União Bandeirante, do Paraná. Sinha e Robert fizeram suas estreias pelo Tigre, que venceu por 2 a 0. A segunda vitória veio só no encerramento da 1ª fase, menos de um mês depois, contra a Ferroviária (16-10-1994), insuficiente para evitar a eliminação precoce.

No primeiro semestre, o time oscilou bastante no Campeonato Paulista. Com a promessa de montar um time ousado, Cilinho levou os jogadores para uma pré-temporada em Araxá-MG, mas as chuvas na cidade mineira anteciparam o retorno em uma semana. Antes da estreia no Paulistão, Cilinho repetiu o que havia feito em 1992 e marcou uma missa campal para pedir proteção (25-1-1994).

Foi um início assustador de campeonato, com cinco derrotas em seis partidas, a última delas já sob o comando do técnico Sérgio Ramirez, que assumiu o lugar de Cilinho e ganhou alguns reforços, como o experiente volante Cristóvão. O uruguaio conseguiu então uma boa sequência de resultados, mantendo o time invicto por nove rodadas.

Na última rodada, o Rio Branco enfrentou o União São João precisando vencer para terminar o campeonato na 6ª posição e garantir um lugar na Copa dos Bandeirantes, que dava ao campeão uma vaga na Copa do Brasil. Porém o time empatou e ficou em 7º, uma posição atrás do Novorizontino.

Depois do Paulistão, na segunda quinzena de julho, Borelli convidou Minão Vitta para assumir o cargo de vice de futebol, que estava vago desde o final do estadual. Alegando compromissos profissionais, Minão disse não. Quem assumiu o cargo deixado por Gerson da Silva foi Celso Abrahão, dois dias antes de completar 40 anos (1-9-1994). Representante têxtil, Abrahão estava na diretoria desde setembro de 1992. A convite dele, o ex-presidente Tchida Marin voltou a trabalhar no futebol do clube.

Outro ex-presidente que voltou às manchetes do Rio Branco foi Chico Sardelli. O relacionamento entre ele e Borelli, que já não era dos melhores, piorou durante o Paulistão. Após o Rio Branco perder em casa para o Guarani por 2 a 0 (6-2-1994), Cilinho disparou contra a arbitragem. Falou em esquema e acusou Sardelli, que integrava a comissão de arbitragem, e Eduardo Farah, filho do presidente da federação, Eduardo José Farah, de tentarem dar um cala-boca no clube e em parte da imprensa de Americana.

Pediu Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a federação e para que, afirmou, “possamos banir do futebol os corruptos e canalhas”. Cilinho continuou: “Vou dar nomes aos bois e não adianta o Chico Sardelli e o Farahzinho tentarem manipular e intimidar. O Campeonato Paulista é manobrado e ninguém vai dar cala-boca no técnico do Rio Branco”. Disse também que o Rio Branco havia conquistado o acesso anos antes – sob a administração de Sardelli – porque havia sido beneficiado pela arbitragem.

Borelli decidiu demitir Cilinho na véspera do aniversário de 55 anos do treinador (8-2-1994), o que não impediu Sardelli de registrar, no dia seguinte, uma queixa-crime contra o treinador no Fórum de Americana por calúnia, injúria e difamação.

“Se o Cilinho tem divergências com o Farah e sua família, o problema é dele e não entro no mérito da questão, mas como presidente não posso deixar o clube ser penalizado”, justificou Borelli para O Liberal, dizendo que havia tomado a decisão sozinho. Cilinho, disse o vice de futebol, Gerson da Silva, ficou surpreso, mas entendeu Borelli. Junto com ele, saíram Marcos Carioca, preparador físico, e Carlinhos Magalhães, supervisor da base.

Cilinho foi embora, mas as reclamações contra arbitragem continuaram. Em março, o juiz Roberto Perassi enviou relatório à federação denunciando Borelli e diretores por ofensas e ameaças durante derrota para o Palmeiras (20-3-1994). No mês seguinte (7-4-1994), Borelli voltou a falar de arbitragem, após o Tigre vencer a Portuguesa no dia anterior, e reclamou que Sardelli teria levado uma fita com declarações dele, Borelli, contra a arbitragem para o presidente da federação.

Marcelo abre o placar de pênalti contra o Palmeiras em 20 de março de 1994 e comemora com Aritana

Sardelli negou. “O presidente do Rio Branco precisa ter bom senso e ser equilibrado. Atualmente não está existindo humildade, simplicidade. Parece que sou um fantasma. Qualquer problema é o Chico Sardelli culpado. Ele está faltando com a verdade”, rebateu, mostrando que o problema ia muito além de erros de arbitragem. “Não sei do que eles ficam reclamando. Pegaram o Rio Branco em situação iluminada. É mentira que usei o clube politicamente. Fui candidato antes de ser presidente. É mais uma leviandade que não vou ficar ouvindo gratuitamente”, completou Sardelli.

Borelli já se mostrava cansado do cargo que ocupava. Em abril, já revelava a intenção de parar e garantia que nunca mais ocuparia o cargo de presidente. “Futebol é coisa para louco”, justificou. Disse que o clube gastava US$ 80 mil por mês no futebol – contando a base – e que isso só era possível graças à venda de jogadores e também aos vários bingos promovidos ao longo do ano. Além disso, alegava que havia investido US$ 200 mil no estádio em obras de canalização que ficavam sob a terra e que, por isso, ninguém via.

O estádio havia passado por várias melhorias, envolvendo bilheterias, bares, banheiros, acessos e muro. Uma grade passou a dividir setores da arquibancada e, além disso, o tamanho do gramado foi ampliado para 110m x 73m. Em setembro, o clube terminou de construir o alojamento do estádio.

O Rio Branco perdeu em 1994 um de seus mais importantes patrocinadores. Já no início do ano (13-1-1994), o vice-presidente de marketing, Francisco Carlos Rangel, via como muito difícil um novo acordo com a Ripasa, que havia feito duas propostas sem que o clube aceitasse. A Vicunha, que tinha um patrocínio diferente com o nome da empresa estampado em placas nas duas maiores torres de iluminação do estádio, também não havia acertado a renovação. O clube via com confiança possíveis acertos com Polyenka ou Tsudakoma, mas nenhum deu certo e o clube iniciou a temporada apenas com um contrato mais pesado, o da Goodyear, que havia sido renovado em dezembro de 1993.

Ainda sem patrocínio, o clube apresentou seu novo fornecedor de material esportivo (13-1-1994), a Reusch, e as novas camisas, que fugiam completamente do tradicional. A camisa número 1, branca, era cheia de detalhes ondulados nas mangas e nos ombros; a número 2, listrada, tinha o nome do clube escrito no lugar das faixas pretas, na vertical.

O clube só ganhou um novo patrocinador de camisa quase dois meses depois. Empresa do ramo têxtil e químico, que já vinha ajudando o clube principalmente com cimento, a Nitroquímica foi anunciada (2-3-1994) como patrocinadora até o final do ano, com opção de renovação por mais uma temporada – o que aconteceu. Os valores giraram em torno de US$ 10 mil por mês.

O social do Rio Branco viveu um período muito intenso em 1994. Segundo o vice-presidente social, José Luiz Meneghel, o Pé, o Carnaval atraiu 8 mil pessoas por noite. Com o tema “A Sapucaí é Aqui”, o clube teve, na última noite, na terça, a presença do famoso sambista Neguinho da Beija-Flor. Em apenas duas de suas promoções, por exemplo, o Rio Branco investiu US$ 70 mil para trazer ao clube Titãs e Gabriel, O Pensador.

Embora com atrações, a sede social já começava a se tornar um problema para o clube. Em agosto, cogitou-se um acordo com alguma construtora para um empreendimento imobiliário no local. O salão de bailes precisava de reforma e a piscina havia perdido bastante frequência porque 80% dos associados utilizavam a sede náutica para nadar. Prédios construídos no entorno escondiam o sol da piscina por uma boa parte do dia e havia problemas de infiltração. As quadras eram pouco utilizadas. Nesse cenário, o clube não investia na sede social.

A sede náutica também tinha seus problemas, que levaram inclusive ao pedido de demissão do vice que cuidava do local, José Carlos Bertolucci (13-10-1994). Dizia ele que todos os departamentos tinham dinheiro para obras e melhorias, menos a sede náutica. Borelli negou, revelou, que desde 1993, quem sustentava o clube inteiro era o futebol, invertendo a lógica dos anos anteriores, disse que administrava o clube como um todo e que não iria nomear ninguém para o cargo.

O futebol sustentava o clube principalmente pelo dinheiro da venda de jogadores. Duas das maiores revelações da história do Rio Branco, Flávio Conceição e Souza, foram vendidas em 1994, no início e no fim do ano. Flávio Conceição foi vendido ao Palmeiras (3-1-1994) por US$ 235 mil mais o passe do goleiro César.

O meia Souza foi eleito a revelação do Campeonato Paulista e, em solenidade no restaurante The Place, em São Paulo, ganhou uma poupança Bradesco em cruzeiros reais equivalente a US$ 2,5 mil. Em maio, foi emprestado por US$ 200 mil ao Corinthians, que comprou seu passe no fim do ano (28-12-1994) por US$ 1,8 milhão, valor que seria pago em sete vezes.

Nesse trabalho de formar jovens jogadores, o Rio Branco voltou a disputar uma final de Campeonato Paulista na base em 1994. Depois de empatar com o Corinthians sem gols no primeiro jogo da final do dente de leite, em Vinhedo, o time do técnico Zé Pulga venceu o rival por 1 a 0, na mesma cidade, na partida decisiva (12-10-1994). Com Sandro Hiroshi e Anailson – autor do gol na final, aos 18 minutos do segundo tempo – como dupla de ataque, o Tigre venceu 11 dos 18 jogos que disputou, empatando cinco e perdendo duas vezes. Foram 30 gols marcados e nove contra. Pela primeira vez, o Rio Branco contratou uma psicóloga, Cíntia Alisson Jensen, para trabalhar com os jogadores (29-6-1994), seguindo o que clubes grandes estavam fazendo.

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A pesquisa que resultou no site "Almanaque do Tigre", além de outros trabalhos como o filme "Tigre de Americana - Uma paixão centenária" e o livro "Almanaque do Rio Branco - O Embaixador de Americana", foi extensa. Foram décadas consultando jornais, edição por edição, e colhendo informações. Foram centenas de entrevistas com jogadores e técnicos, que gentilmente cederam fotos ou vídeos ao acervo.

Por isso, ao reproduzir alguma informação, foto ou vídeo desse site, dê os créditos. É importante para que o trabalho de resgate da história do Tigre continue existindo e seja valorizado.

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