Esse texto, escrito por Claudio Gioria, foi publicado pela primeira vez em 29 de maio de 2024, logo após o falecimento do roupeiro Aparecido Ferrari, sinônimo de Rio Branco durante quase toda a sua vida. O vestiário principal do Estádio Décio Vitta leva hoje o nome de Peixe-Gato.
“Se eu posso ajudar, por que não vou fazer?”
Foi assim que o Peixe encerrou o último “causo” dos inúmeros que ele me contou. O Rio Branco havia acabado de subir em Jaú, nesta última Série A-4, e durante a semana eu fui lá.
Na semana do jogo contra o XV, alguém no clube confirmou à federação que o Rio Branco jogaria de branco. Mas como de branco se era o preto que vinha “dando sorte” naquele campeonato?
Peixe resolveu ajudar. Logo cedo, em Jaú, procurou o árbitro da partida, já que o delegado do jogo não quis nem papo. Olho no olho, segundo as palavras dele mesmo, disse ao árbitro que perderia seu emprego se o time jogasse de branco porque faltava um patrocínio na camisa e ele seria responsabilizado por isso.
A história sensibilizou o juiz. O Rio Branco poderia jogar de preto, como o Peixe queria. Nunca saberemos o que teria acontecido se o time tivesse jogado de branco. De preto, o time fez seu melhor jogo no campeonato, venceu por 3 a 0 e garantiu o acesso fora de casa.
Caras como o Peixe são a essência de um clube de futebol. De sentar e contar histórias. Ou melhor, de sentar e ouvir as histórias. Não existe Rio Branco no Décio Vitta sem o Peixe. Isso não é uma expressão, é fato. Mal existiu futebol profissional no Rio Branco sem o Peixe, que começou como gandula antes mesmo do Rio Branco voltar ao futebol em 1979 e virou roupeiro oficial depois da saída do Bidinha.
Quando ele precisava de uma foto antiga dele mesmo para mandar para a Globo, ele me pedia. Quando eu precisava que alguém fizesse o time titular tirar uma foto antes de um jogo, era para ele que eu pedia.
Quando ele não lembrava o nome de um jogador antigo, ele me perguntava. Não porque a minha memória fosse melhor, mas porque eu anoto, e ele sabia disso.

Quando eu quis fazer um filme do Rio Branco, foi ele o primeiro da lista de entrevistados, e obrigatoriamente não em um estúdio, mas no estádio. O Peixe não tinha nada a ver com um estúdio.
Quando fiz o livro, o dele foi de presente.
Quando ele queria encontrar o Dau, ele me pedia. Quando eu encontrava, mandava o contato pra ele.
Quando eu achava algum outro jogador antigo que perguntava “E o Peixe?” (foram vários), eu fazia questão de falar pra ele. Faz bem para as pessoas serem lembradas depois de tanto tempo.
O último contato que mandei pra ele foi do Motoca, dias atrás. Ele me falou da cirurgia, disse que estava bem. “Que se recupere rápido, Peixe. Saúde e paz, o resto não importa”, respondi.
Mas ele voltou para o hospital, e não voltou mais.
Não é exagero não conseguir imaginar o Rio Branco sem o Peixe, mas a vida vai seguir. Com menos “causos”, com menos histórias que tão bem fazem ao futebol, mas vai seguir.
Esse último “causo” da camisa preta teve uma foto. Essa daí que eu postei. Entre as milhares de fotos que tenho do Rio Branco, eu nunca estou nelas. Por um motivo óbvio: não faço parte da história, eu a registro. Mas, naquele dia, o Gustavo Tomazeli insistiu para tirar uma foto minha com os dois funcionários mais antigos do clube, o Peixe e o Xororó. É a única foto que eu tenho com o Peixe.
Que o Rio Branco jogue até o fim do ano de luto.
Que entre em campo na estreia da Copa Paulista todo de preto, por motivos óbvios para quem leu esse texto.
Que o vestiário do Rio Branco no Décio Vitta ganhe um nome, uma plaquinha na porta com a inscrição “Vestiário Peixe-Gato”. Não há homenagem mais com a cara do Peixe do que essa.
Para que, quem entre ali, nunca esqueça de um personagem que, na sua simplicidade, sem nunca ter jogado pelo clube, conseguiu marcar seu nome na história. Vai fazer muita falta.
