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Juraci Catarino, de guardinha a supervisor de futebol

Posted on agosto 20, 2026

Juraci Catarino nasceu em 10 de outubro de 1963 e começou a trabalhar no Rio Branco em 1º de julho de 1977, pouco antes de completar 14 anos. Foi recrutado junto ao Serviço de Orientação de Menores de Americana (SOMA), onde atuava como guarda-mirim, para trabalhar como office-boy no clube. Antes disso, havia trabalhado durante três meses em um banco.

A adaptação ao novo emprego, porém, não foi imediata. “Logo no primeiro dia, não gostei do serviço e não queria continuar”, contou Juraci ao jornal O Liberal, em 2002, quando completava 25 anos de trabalho no Rio Branco. Pensou em desistir, mas outros funcionários pediram que tivesse calma e garantiram que logo se acostumaria. Ficou. Anos depois, apontou João Batista de Oliveira Ramos, Geraldo Bettin, Djair Baccan e João Jacob como os responsáveis por sua longa permanência no clube. “Eles me ensinaram e me ajudaram muito”, afirmou.

A carteirinha de Juraci como guardinha do Soma

De office-boy, Juraci passou a auxiliar de escritório e depois a tesoureiro. Em 1984, foi convidado a trabalhar no departamento de futebol, iniciando uma trajetória que o levaria a se tornar supervisor e um dos homens de confiança das sucessivas administrações do Rio Branco.

A rotina no futebol combinava com seu perfil. Em 2002, dizia gostar da “correria”, de ter muitas coisas para fazer ao mesmo tempo. Segundo ele, trabalhar no Rio Branco exigia paciência, jogo de cintura e dedicação, a ponto de os demais afazeres muitas vezes ficarem em segundo plano, já que não havia hora certa para entrar ou sair.

Em 1985, protagonizou uma das histórias mais curiosas de sua passagem pelo clube.

O Rio Branco havia contratado dois atacantes do XV de Piracicaba, Tim e Gilberto, e Juraci recebeu a missão de ir à Federação Paulista de Futebol, em São Paulo, para registrar os jogadores. Ao chegar, descobriu que o registro precisava ser feito na Confederação Brasileira de Futebol, no Rio de Janeiro.

Ligou para o clube, que providenciou um PTA, autorização para que retirasse a passagem em São Paulo e viajasse ao Rio. Havia, porém, outro problema: Juraci estava sem documento pessoal e, sem ele, não conseguiria retirar a passagem.

A solução foi inusitada. Foi a uma delegacia e registrou um boletim de ocorrência dizendo que havia sido assaltado perto do aeroporto. Com o BO, conseguiu retirar a passagem, viajou para o Rio — na primeira viagem de avião de sua vida — e registrou os jogadores na CBF dez minutos antes do fechamento.

A experiência acabou se tornando uma das histórias mais conhecidas de sua trajetória no clube, marcada pela necessidade de resolver os problemas que apareciam no caminho.

Ao longo dos anos, Juraci acompanhou as transformações do Rio Branco e do próprio departamento de futebol. Em 2002, avaliava que o clube havia evoluído rapidamente no cenário esportivo brasileiro e que essa ascensão havia ocorrido de maneira sólida, com uma base estruturada. Também observava uma mudança importante: no início de sua trajetória, o clube mantinha o futebol; depois, era o futebol que mantinha o clube.

Sua permanência atravessou diferentes presidentes. Para Juraci, essa era uma das características de seu trabalho. Dizia que o segredo era trabalhar para o clube, e não para o presidente, respeitando a maneira de cada dirigente atuar e evitando posições partidárias dentro da administração.

Entre os técnicos com quem trabalhou, apontava Lula Pereira como o melhor que havia passado pelo Rio Branco. Na sua avaliação, o treinador conseguia tirar algo a mais dos jogadores e fazia com que o menor número possível de problemas chegasse à diretoria. Também citava Afrânio, Raul, Zé Teodoro e João Carlos entre os bons técnicos que passaram pelo clube.

Entre os jogadores, lembrava de Raimundinho, um meia que atuou no Rio Branco no início da década de 1980 e que considerava muito bom, acreditando que poderia ter chegado a um grande clube. Entre os jogadores revelados pelo clube, destacava Anaílson, que considerava capaz de decidir uma partida em um único lance.

O momento mais emocionante de sua trajetória, entretanto, foi o acesso à Primeira Divisão em 1990. Naquele ano, a cidade de Americana se envolveu com o Rio Branco, que disputava seus jogos com o estádio lotado. A vaga foi garantida em 1º de dezembro, com o empate sem gols contra o Olímpia, em Olímpia. Na volta para Americana, o time foi recebido por uma multidão e seguido por uma grande carreata.

Juraci também guardava lembranças de decepções. Uma delas aconteceu em 1981, quando o Rio Branco precisava vencer o Nacional, em Americana, e torcer para que o Santo André não ganhasse sua partida contra o Saad. Valia o título do primeiro turno da segunda divisão. O Rio Branco fez sua parte e a torcida chegou a comemorar, mas, aos 52 minutos do segundo tempo, veio a notícia do gol do Santo André, que fez 2 a 1, acabando com a festa.

Outra decepção ocorreu no Campeonato Paulista de 2001. O Rio Branco precisava apenas de um empate com gols para chegar às semifinais, mas perdeu por 2 a 1 para a Ponte Preta, no Estádio Décio Vitta.

A relação de Juraci com o Rio Branco durou 29 anos e oito meses. Depois do primeiro rebaixamento da história do clube, em 2007, e sem futebol profissional para trabalhar em Americana no segundo semestre daquele ano, deixou o Rio Branco e foi para o Santo André.

Nunca mais voltou.

Mas, até hoje, apesar de quase duas décadas longe do Rio Branco, segue tendo seu nome associado ao clube onde por mais tempo trabalhou em toda sua carreira.

Wilson Goiano assina contrato em 4 de dezembro de 1999, com Celso Abrahão, Mario Antonucci e Juraci
Observado por Juraci, Zé Teodoro dá entrevista em 5 de janeiro de 2001
Luis Nunes, Juraci e Luis Carlos, da Kanxa, no lançamento do uniforme de 1996
Juraci nas cativas do Décio Vitta no final dos anos 90
Juraci era um admirador do trabalho do técnico Lula Pereira (à esquerda)
Juraci em 1997
Juraci e seu inseparável celular tijolão, já como supervisor de futebol
Juraci conversa com jogadores no vestiário do Décio Vitta no final dos anos 90
Juraci com o ingresso para o jogo decisivo contra o São Caetano na Série C de 1998
Ju Jensen, Juraci e Mario Antonucci no início dos anos 2000

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A pesquisa que resultou no site "Almanaque do Tigre", além de outros trabalhos como o filme "Tigre de Americana - Uma paixão centenária" e o livro "Almanaque do Rio Branco - O Embaixador de Americana", foi extensa. Foram décadas consultando jornais, edição por edição, e colhendo informações. Foram centenas de entrevistas com jogadores e técnicos, que gentilmente cederam fotos ou vídeos ao acervo.

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