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Rio Branco e Americana, caminhos cruzados

Posted on agosto 8, 2026

As sessões da Câmara Municipal de Americana naqueles primeiros meses de 1953 giravam em torno de praticamente um assunto: onde seria construído o prédio do Ginásio Estadual (da 5ª à 8ª série), criado pelo governador Adhemar de Barros através da lei 613, de 2 de janeiro de 1950, em 37 cidades. Algumas destas cidades, entre elas Americana, estavam em um grupo prioritário e teriam toda a construção custeada pelo governo estadual, mas precisavam ceder uma área para isso.

Após uma série de visitas de representantes do Governo do Estado, uma área encheu os olhos. Ela tinha frente para a Rua Fernando Camargo, quando ainda não existia a Rua dos Professores. Ali havia um estádio de futebol, o estádio do ainda Rio Branco Football Club, que na década seguinte, em 10 de outubro de 1961, passaria à sua denominação atual, Rio Branco Esporte Clube.

Vista aérea do antigo campo do Rio Branco na Fernando Camargo, que deu lugar ao colégio; a rua da foto é a Fernando Camargo, com a sede social do clube construída entre a via e o campo

Em meio aos debates sobre a área a ser cedida, em 26 de maio de 1953 a Câmara realizou uma sessão extra para discutir o assunto, e o vereador Estevam Faraone resumiu o sentimento geral sobre o interesse do Governo do Estado especificamente na área do clube. “O Rio Branco é composto por americanenses, que pensam como os senhores vereadores, que têm interesse em servir Americana, e não se negarão a entrar em entendimentos com a prefeitura. De nada valeria aos riobranquenses exigir grandes indenizações, porque os ônus delas recairiam sobre eles mesmos, como parte do povo que são”.

A fala não tratava apenas de um terreno. Mostrava como, naquele momento, clube e cidade já estavam profundamente ligados.

Quando Villa Americana deixou de ser distrito de Campinas e tornou-se município, em 12 de novembro de 1924, o Rio Branco já fazia parte da rotina local havia mais de uma década. Fundado em 4 de agosto de 1913, o clube acompanhou naqueles primeiros anos o crescimento da vila, a consolidação de lideranças políticas e econômicas e a formação das famílias que mais tarde participariam diretamente da administração da cidade.

O início da história do Rio Branco, fundado como Sport Club Arromba e que virou Rio Branco Football Club em 1917, ajudou a atrair holofotes para aquele pequeno distrito de Campinas que iniciou o processo legal para se transformar em cidade naquele mesmo ano de 1917. Antes da emancipação política de Americana, o clube do distrito já havia conquistado duas vezes, em 1922 e 1923, o maior título que um clube de todo o interior do estado poderia almejar, o do Campeonato do Interior. Assim, quando Americana virou cidade, já tinha a melhor equipe de futebol do interior de São Paulo.

O melhor time do interior em 1922 e 1923: da esquerda para direita, Paschoal Vitta, Braga, Ditinho, Bortolato, Augusto Américo, Albertino, Raphael Vitta, Alfredo Vitta, Carabina, Fructuoso e Gambarotta (técnico); deitado, o goleiro Pisoni

A ligação do clube com a cidade, porém, ultrapassou o esporte. Em 1942, o Rio Branco alterou seus estatutos e passou a se definir oficialmente como “sociedade recreativa, esportiva e cultural”. Sob a presidência de Antonio Camargo Neves, o Tota, começou a construção da sede social da Rua Fernando Camargo, ao lado do campo. A pedra fundamental do prédio foi lançada em setembro daquele ano em cerimônia que teve como paraninfo Achilles Zanaga.

A relação entre as famílias Zanaga e o clube atravessou décadas. Em 1942, Tota já era viúvo de Maria Zanaga Camargo Neves, filha de Achilles e irmã de Antonio Zanaga, prefeito de Americana em dois diferentes períodos entre 1931 e 1941 e que reapareceria na história do clube, na década seguinte, de uma forma marcante.

A sede social, inaugurada em 1943, em um baile pré-Carnaval, rapidamente se transformou em um dos principais pontos de encontro de Americana. No dia da inauguração, quem esteve presente foi o prefeito João de Castro Gonçalves que, segundo a edição do jornal “O Município” de 14 de março de 1943, se entusiasmou com aquela grande novidade na cidade. “Entusiasmado com a óbra, que é a Séde do Rio Branco F.C. prometeu todo o seu apoio, tanto particular como oficial”, escreveu o semanário.

Ao longo de décadas, os jornais de época registraram os mais diferentes eventos na sede social do Rio Branco. Em um período no qual a cidade ainda não possuía espaços fechados amplos de convivência, o Rio Branco passou a receber parte importante da vida social americanense. Ali aconteceram bailes de Carnaval, casamentos, formaturas, shows, apresentações culturais e reuniões públicas. Em 1944, o movimento era tão intenso que a diretoria resolveu ampliar o horário de funcionamento da sede social: nos dias úteis, passou a abrir às 13h30 e, aos domingos e feriados, a partir das 9h. Em 1962, a construção da piscina e de quadras esportivas tornaram o local uma referência ainda maior na cidade.

Foi ali, por exemplo, que a Associação Comercial e Industrial de Americana reuniu autoridades da cidade, em janeiro de 1950, para discutir a implantação do sistema de telefonia automática na cidade. Também foi na sede do clube que ocorreu, em 1955, a primeira apuração eleitoral realizada no município após a instalação da Comarca. Foi a primeira de muitas vezes em que candidatos acompanharam a apuração nos salões do Rio Branco, de onde vitoriosos partiram em carreatas pela cidade.

Naquela eleição de 1955, vencida por Abrahim Abraham, a política local e o Rio Branco novamente se cruzavam. Antes de se tornar prefeito, Abraham havia presidido o clube, assim como seu antecessor, Jorge Arbix. Este havia não apenas presidido o clube, como também era genro de João Truzzi, um dos fundadores do Rio Branco.

Sede social do Rio Branco nos anos 60, antes do alargamento da Rua Fernando Camargo
Inauguração da piscina da sede social, em 11 de fevereiro de 1962

Foi neste contexto de crescimento urbano da cidade, valorização da região central e fortalecimento do clube como espaço social que o destino físico do Rio Branco começou a mudar. Aprovada em assembleia pelos associados em 4 de junho de 1953, a cessão da área da Rua Fernando Camargo onde estava o estádio para a prefeitura doar ao Governo do Estado permitiu a construção ali do futuro Instituto Presidente Kennedy, com o Rio Branco preservando parte da área, onde estava sua sede social. Em troca, o clube recebeu uma nova área no São Domingos, de 50 mil metros quadrados, pertencente ao espólio de Achilles Zanaga, então representado por Antonio Zanaga.

A operação acabou ligando dois momentos importantes da expansão urbana de Americana. Na região central, surgia uma escola que marcaria gerações de estudantes americanenses. No São Domingos, com acesso à área por uma única via de terra e com grandes áreas vazias ao redor, começava a nascer o projeto do novo estádio do Rio Branco.

A construção do estádio teve como um de seus principais articuladores Décio Vitta, outro que chegou a ocupar a cadeira de prefeito de Americana e que presidiu o clube, onde ocupou diferentes cargos ao longo de mais de quatro décadas. Filho de Raphael e sobrinho de Alfredo e Paschoal, jogadores das equipes campeãs do interior de 1922 e 1923, Décio cresceu praticamente ao lado do antigo campo da Fernando Camargo, carregando na perna uma cicatriz que ganhou após uma briga no estádio, com garrafas voando e o atingindo na frente de de sua casa, atrás do gol de fundo do estádio.

Quando as obras do estádio começaram a ganhar ritmo, no final dos anos 1960 e durante os anos 1970, a região ainda possuía aquele mesmo acesso precário, sem praticamente nada em volta. Assim, o estádio acabou funcionando também como um dos marcos da expansão urbana daquela parte da cidade. Loteamentos surgiram no entorno. Anúncios imobiliários já utilizavam a proximidade do estádio como referência geográfica. O Rio Branco ajudava a deslocar parte do eixo de crescimento urbano para uma região onde antes não havia ocupação.

O Estádio Décio Vitta foi inaugurado em 1º de maio de 1977. Dois anos depois, o clube retornou ao futebol profissional após duas décadas afastado das competições. Desde então, voltou a ser o principal representante esportivo da cidade, sem nunca mais interromper suas atividades no futebol.

Lançamento da pedra fundamental do estádio do Rio Branco, na sede do clube, em 15 de setembro de 1968; na foto estão três prefeitos: Abrahim Abraham, João Romano e Abdo Najar

Mesmo com a mudança lenta e gradual do eixo esportivo para o São Domingos, a sede da Fernando Camargo continuou ocupando papel importante na vida social da cidade. Em justificativa enviada à Câmara Municipal em 1971 para um projeto de isenção de taxa para o clube, o então prefeito Abdo Najar destacou que ali aconteciam “quase todas as formaturas de nossos jovens, reuniões de importância da comunidade, apurações eleitorais, cultura, teatro, conferências”.

Nas décadas seguintes, com o futebol forte novamente, novos personagens da vida pública americanense estiveram ligados ao Rio Branco. Bem antes de ser eleito prefeito, Chico Sardelli presidiu o clube no período do tão sonhado acesso à primeira divisão paulista, em 1990. A conquista provocou a maior festa esportiva popular que Americana já viu e acelerou novas ampliações no estádio.

A ligação familiar com o clube também seguia presente. Chico é casado com Lionela Ravera. O pai dela, Lionello Ravera, participou diretamente da incorporação do patrimônio do Clube de Caça e Tiro de Americana ao Rio Branco em 1973, quando, como presidente, apresentou uma proposta aceita pela diretoria e pelos associados: todo aquele patrimônio seria incorporado ao Rio Branco e, em troca, o clube assumia parcelas de um empréstimo que havia sido feito. O antigo Clube de Caça e Tiro é a atual sede náutica do Rio Branco.

2º Festival MPB na sede social do Rio Branco, em 17 de agosto de 1980

No governo de Diego De Nadai, o Estádio Décio Vitta chegou a ser municipalizado, com o clube deixando de arcar com os custos de manutenção do local. Diego é filho de um ex-presidente do Rio Branco, Oswaldo De Nadai. Na mesma época, em grave crise financeira, o clube acabaria vendendo judicialmente, para o pagamento de dívidas, a área de sua sede social, construção demolida em outubro de 2013.

Ao longo de mais de um século, o Rio Branco atravessou diferentes fases da história de Americana. Acompanhou a emancipação política da cidade, participou de sua expansão urbana, serviu como espaço de convivência social e teve sua trajetória ligada a famílias e personagens que também ocuparam a vida pública do município.

Riobrancão em 1981, com acesso apenas por uma via de terra e sem construções ao redor

A acalorada discussão na Câmara em 1953 sobre o terreno da Rua Fernando Camargo acabou simbolizando essa relação. Em caminhos diferentes, que nunca deixaram de se cruzar, clube e cidade seguiram ligados ao longo de mais de um século. Da área cedida para a construção do Instituto Presidente Kennedy ao estádio erguido no São Domingos, passando pela construção de sua sede própria, a trajetória do Rio Branco acabou incorporada à própria expansão urbana e à vida social de Americana.

Em diferentes gerações, a história do clube também passou a fazer parte da memória afetiva dos americanenses. Seja nas formaturas realizadas em seus salões, nas escolinhas de natação, nos bailes e festas que movimentavam a cidade, nas apurações eleitorais acompanhadas madrugada adentro, nas tardes de futebol ou simplesmente na paisagem urbana de diferentes épocas, o Rio Branco acabou ocupando um espaço que ultrapassou o esporte. Acabou incorporado não apenas à paisagem urbana, mas também à memória coletiva da cidade.

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