Emoção e futuro incerto
A temporada de 1983 é daquelas que o torcedor não se esquece. Um bom time, uma boa campanha e jogos que pararam a cidade. Mas antes de a bola rolar, o Rio Branco viveu bastidores políticos agitados. E quando ela parou de rolar, as dúvidas sobre o futuro do futebol do clube voltaram com força internamente.
O ano começou com as atenções voltadas à política, com uma eleição antecipada de março para janeiro para não prejudicar a preparação da equipe para a 2ª Divisão. Diferentemente da eleição anterior, houve disputa pelo cargo com a oposição registrando (10-1-1983) a chapa Renovação, com 60 conselheiros liderados pelo industrial Nelson João Bellan, ex-presidente do AEC. A chapa da situação, Riobrancão, já estava inscrita desde o início do ano (3-1-1983) com apoio do presidente Décio Vitta e liderada pelo comerciante Luiz Mário Marin, o Tchida Marin.
Já na campanha, Marin defendia o clube sem um presidente fixo, mas administrado por um colegiado formado por ele, Armindo Borelli e um terceiro nome que ainda não estava definido. Entre as propostas, havia algumas que se concretizariam no futuro, como o bar da sede náutica funcionando durante o dia para atender quem usasse os três minicampos a partir de março, quando estava prevista a inauguração, e o salão de jogos da sede social deslocado para a secretaria para que, no local, funcionasse uma boate. Além disso, Marin queria reduzir o número de funcionários do clube, à época com 26.
Na eleição (16-1-1983), eram aptos a votar 1.702 associados que estavam em dia com a mensalidade. Os dependentes – 2 mil – não votavam. Mas não se esperava que o número recorde de votantes em eleições do clube fosse quebrado – 514 em 1º de maio de 1977, na reeleição de Delcio Dollo.
Isso se confirmou. Foram apenas 180 presentes. Um deles não foi à urna, dois anularam o voto e a chapa da situação venceu por 102 a 75. Marin já tinha anunciado que o clube seria presidido por ele e mais dois, mas Dollo alertou que isso não era possível porque o estatuto não permitia.
Se o estatuto não permitia, que se mudasse o estatuto, e isso aconteceu no dia em que o Conselho Deliberativo elegeu o substituto de Décio Vitta (20-1-1983). Com a presença de 42 dos 60 conselheiros, alterou-se o estatuto e foram eleitos três nomes para comandar o Rio Branco até março de 1986: Marin, Borelli e Edison Fassina. Para presidente do Conselho, Vitta lançou Tirone Furlan, que recusou alegando problemas particulares. Lançou e insistiu então com Luis Carlos Correa, que aceitou o cargo e foi aclamado.
A “inovação” no clube durou pouco. O Conselho Nacional dos Desportos vetou (10-2-1983) a opção por três presidentes no Rio Branco. Segundo a entidade, nenhum clube a ela filiado poderia ter mais de um presidente. A FPF também não aceitou. Assim, em uma reunião improvisada no Hotel Barcellos, porque a sede estava sendo usada para uma palestra, 40 conselheiros elegeram Marin como presidente, Borelli como primeiro vice-presidente e Fassina como segundo vice.
Em 1983, o Rio Branco voltou a sonhar com o zagueiro Ademir Gonçalves e chegou a anunciar o experiente atacante Lola, ex-Atlético-MG, Guarani e Ponte Preta, mas nenhum dos dois chegou. O futebol tinha em João Feltrin um de seus homens fortes e perdeu Pedro Francischangelis (1-3-1983), que pediu demissão devido a compromissos com a empresa onde trabalhava.
O início da 2ª Divisão foi adiado sucessivas vezes, em meio a uma briga devido à falta de capacidade dos estádios de Taquaritinga e Bragantino para que jogassem a elite após conquistarem o acesso. Com seguidas liminares, o campeonato foi sendo adiado até que finalmente o Tigre estreasse, em março.
Mas não demorou e o campeonato parou de novo (15-4-1983), após liminares dadas a Bragantino e Taquaritinga, o que fez o Rio Branco tomar a frente da situação e convocar para a sua sede social uma reunião com representantes de 30 clubes da 2ª Divisão em busca do fim do impasse (19-4-1983). No dia seguinte, ficou decidido que o Taquaritinga iria disputar a elite e o Bragantino jogaria por uma vaga diante do XV de Jaú, e assim a 2ª Divisão teve sequência.
O Rio Branco não foi bem no 1º turno, o que irritou a diretoria, ainda mais com as notícias de que regras não eram seguidas na república dos atletas. Diante disso, a diretoria reuniu os atletas e implantou linha dura total (1-7-1983).
As novas regras eram as seguintes: cartões amarelos poderiam render, a critério da diretoria, multa aos jogadores, a qual dobraria em caso de vermelho; quem fosse expulso seria obrigado a se concentrar e ir para o jogo junto aos companheiros na partida seguinte; atleta machucado teria de ficar na concentração até se recuperar; quem estivesse acima do peso teria 15 dias para entrar em forma, caso contrário treinaria em separado e poderia ter o contrato suspenso; o horário limite para estar na república era 23h e quem chegasse atrasado seria multado. As medidas incluíam até questões de higiene dentro da concentração, além do aviso de que a ida de jogadores a bares seria fiscalizada com frequência.
Se o Rio Branco não foi bem no 1º turno, o mesmo não aconteceu no returno, quando teve boas apresentações, como na goleada sobre o Guaçuano por 7 a 1 (2-10-1983). A boa campanha levou o time para a decisão do 2º turno no Grupo Branco, contra o bom time do XV de Piracicaba, comandado por Pianelli, que seria um dos destaques do acesso do Tigre em 1990. No primeiro jogo da final (16-10-1983), as bilheterias do Décio Vitta registraram 15.701 torcedores, recorde até então no estádio.
Em campo, o XV foi melhor e venceu por 3 a 0, em um jogo violento e com briga entre os jogadores. Como o saldo de gols não importava na decisão, o Tigre precisava de uma vitória simples em Piracicaba (23-10-1983) para provocar o jogo-desempate. Saiu na frente, com gol de Zito, e vencia até os 23 do 2º tempo, quando Lima empatou. O gol de Paulo Cardoso no final selou a eliminação do Tigre.

O fim do ano foi agitado. Após eliminação, Fassina estimou em Cr$ 50 milhões o prejuízo na temporada. No meio do ano, ele já havia dado entrevista lembrando que o clube não tinha condições estruturais de subir porque o estádio ainda carecia de alambrado, muros e capacidade mínima de 15 mil, exigência da federação – cabiam 11 mil torcedores no Riobrancão.
Cogitou-se, dentro do clube, disputar a temporada seguinte com garotos. Outros nomes de peso eram mais radicais, como o ex-presidente Delcio Dollo, que era declaradamente contra o clube seguir no futebol. Nesse clima, o Rio Branco teve uma acalorada reunião no Conselho Deliberativo no final do ano (24-11-1983).
Dollo foi claro. Para ele, o futebol estava acabando com o clube, e sugeriu uma consulta aos associados sobre a manutenção ou não do futebol. “O futebol surgiu novamente no Rio Branco na minha gestão, mais por pressão da imprensa e do povo do que por nossa vontade. Agora, se é do interesse público manter o futebol, que o senhor prefeito passe a colaborar”, disparou na ocasião. O clima quente fez Décio Vitta intervir e sugerir que a discussão sobre o assunto fosse adiada.
Dias antes, Marin havia dado uma entrevista para O Liberal revelando alguns números preocupantes, que ajudaram a esquentar o clima no Conselho. Colocando em dúvida a presença do time na 2ª Divisão de 1984, revelou que a arrecadação mensal era de Cr$ 10 milhões e o máximo que conseguia destinar para o futebol desse valor eram Cr$ 6 milhões. Como projetava pelo menos Cr$ 16 milhões por mês para manter o futebol profissional, o clube simplesmente precisava dobrar a sua receita. Marin ainda enfrentou, no final de novembro, boatos sobre uma tentativa de conselheiros de o tirarem do cargo. Enquanto isso, Borelli clamava por apoio de empresas.
Todos os diretores do futebol do clube se demitiram no final do ano (26-12-1983), publicando carta aberta na imprensa, mas foram convencidos a seguirem por alguns dias a mais enquanto se definia o que seria feito com o futebol em 1984.
Um novo movimento para dar nome ao Riobrancão surgiu em março de 1983 com a intenção de membros da diretoria – e a confirmação do presidente Marin – de batizar o estádio com o nome do prefeito, Carroll Meneghel, do PMDB. O movimento foi ensaiado depois que o prefeito mostrou intenção de ajudar no término do estádio no que fosse possível. Décio Vitta, que depois daria nome ao estádio, revelou na ocasião que, no ano anterior, ainda durante sua gestão, o estádio só não havia ganhado um nome porque, segundo ele, muitos mereciam a homenagem, não apenas um riobranquense.
Rio Branco e prefeito estiveram envolvidos em uma polêmica sobre uma verba de Cr$ 12 milhões que a prefeitura iria destinar ao clube para ajudar a manter modalidades esportivas amadoras (entre elas o futebol de base). A polêmica levou o clube a publicar uma carta aberta no jornal O Liberal (18-5-1983) esclarecendo que manter esse convênio era um pedido da prefeitura e nada era destinado ao futebol profissional.
Foi em 1983 que um personagem conhecido do esporte de Americana decidiu abandonar a função de massagista do Rio Branco. Com esposa e filho de 2 anos, Alcebíades Gomes da Silva, o Bidinha, 33, deixou o clube para ser funcionário da sauna do Clube Veteranos. Bidinha havia feito de tudo um pouco no futebol amador de Americana, como jogador, técnico, dirigente, juiz e bandeirinha.
Uma tentativa de reativar o futebol do Vasco, que virara AEC e depois havia se fundido com o Rio Branco, ganhou as páginas dos jornais. Em uma reunião na casa de Amazilio Scoriza Lopez (7-10-1983), na Conserva, esse retorno foi até dado como certo em 1984, na 3ª Divisão, o que não se concretizaria.
