O primeiro patrocínio
Entra e sai. Não existe melhor expressão para definir o que foi o Rio Branco em 1984, quando deixou para trás as incertezas sobre a manutenção do futebol que dominaram a pauta no final do ano anterior e fechou o seu primeiro contrato de patrocínio de camisa, que resultou na saída de um ex-presidente da vida do clube.
O ano ficou marcado por idas e vindas de treinadores, jogadores e dirigentes. O clube iniciou o ano sem treinador. Ainda em janeiro, contratou Brasília, que logo caiu. Depois vieram, na sequência, Antoninho, Oscar Amaro, Bidon e Galdino Machado. E, para a temporada seguinte, Tonho assumiu no fim do ano.
A maior polêmica envolvendo um treinador foi com o folclórico Bidon. Em entrevista para O Liberal (15-8-1984), o goleiro Amauri disse até que o elenco não considerava mais Bidon treinador. “Falta esquema de jogo e também não existe diálogo amigável”, justificou.
Bidon logo caiu (a reunião que definiu sua demissão teve seis votos a favor e quatro contra), mas não sem antes dizer o que pensava. “Os responsáveis são aqueles que estão fora do time, os reservas. Foi uma atitude de moleques a de abandoarem o campo e não me aceitarem como treinador. Culpo principalmente os senhores Bispo, Genilson e Sarandi, verdadeiros agitadores”, disparou. Os jogadores haviam deixado o campo durante a palestra de Bidon em uma reapresentação do elenco.
Em campo, jogadores chegaram e saíram com poucos dias de clube. E, entre eles, atletas caros, como os atacantes Radar e Edinho, dois exemplos de uma lista extensa de quem não conseguiu chegar ao fim do ano vestindo a camisa do Rio Branco, como também o zagueiro Fernando e o meia Waguinho.
No comando, dirigentes já iniciaram o ano demissionários, seguiram por um tempo, saíram e voltaram depois. E, ao final do ano, todo o comando de futebol estava trocado para a temporada seguinte. No final de 1983, Zé Zazeri, então presidente do Unidos da Cordenonsi, havia sido convidado para cuidar do futebol no ano seguinte, mas não houve acordo.
As primeiras baixas no comando foram Edison Fassina e Pedro Francischangelis, que entregaram o cargo (14-2-1984) após dois anos de trabalhos no clube. Alegaram que o acordo era que ficassem até 19 de janeiro, mas seguiram por quase mais um mês e decidiram sair após fecharem acordo com o centroavante Radar, a quinta opção para o ataque, depois de o negócio com a Portuguesa envolvendo Beca não ter vingado e o Tigre não ter conseguido trazer Albenir, do Figueirense, Aloisio, do Santos, e Parraga.
Junto a eles, anunciaram suas saídas Gerson da Silva e Savio Oliveira. Mas, como se não tivessem se demitido, continuaram trabalhando para o clube no mês seguinte, principalmente Fassina e Francischangelis, o que durou pelo menos até agosto.
O primeiro a cansar de vez foi Francischangelis, que desta vez deixou o clube de fato (15-8-1984). Depois, no mesmo dia (28-8-1984), Armindo Borelli e Fassina deram adeus. Depois de mandar um “chega de ser bonzinho” em março falando em dispensas e que jogadores faziam corpo mole, Borelli seguiu no clube até agosto, quando se disse cansado com os problemas do futebol do Rio Branco. Após três anos, anunciou sua saída.
O futebol então ficou apenas com o presidente Tchida Marin, Edemil Bertallia e Savio Oliveira, que ganharam o reforço de Fred Pantano, anunciado como novo vice-presidente do clube ao lado de Bertallia, os dois novos nomes fortes do futebol (12-10-1984).

Pantano manteve a política de troca. Primeiro, demitiu o ex-jogador Carlos dos Santos (30-11-1984), então supervisor do clube, com quem tinha brigado dias antes. Depois, José Antonio Bressan, o Totó, técnico dos juniores, decisão revista depois, com Totó seguindo no clube, mas sem participar de nada que envolvesse o profissional, como vinha fazendo em negociações de jogadores.
Nem o cargo de treinador dos juniores resistia no Rio Branco, já que, ainda no início do ano (3-2-1984), o ex-árbitro José Lopes assumiu a equipe no lugar de Plácido José Von Ah, o Totó, que alegou problemas particulares para sair.
A chegada de Pantano – e do técnico Tonho, no final do ano – fez outra vítima. O contrato de Fred Smania, preparador físico, não seria renovado para 1985. Após seis anos de clube, ele deixaria o Rio Branco. Em seu lugar, chegou um homem de confiança de Tonho, Diógenes Camargo, de Casa Branca.
Depois de tantas idas e vindas de diretores, o Rio Branco fechou o ano pensando em 1985 com o futebol sendo comandado por Nicola Vedrani, Durval Pântano e David Tunussi. Este último, com história muito ligada ao Vasquinho, aceitou o cargo de diretor de futebol (13-1-1984) depois de arrastadas negociações e a garantia de pode gastar no elenco Cr$ 15 milhões por mês, 50% das rendas dos jogos e a verba da exploração de bares, placas e vendedores ambulantes do estádio.
Em campo, além de iniciar o ano sem técnico, o Rio Branco tinha apenas cinco jogadores garantidos no elenco para 1984 no dia 13 de janeiro: Marquinhos, Paulinho, Jorginho, Sarandi e Roberto Cruz. Quando aconteceu a reapresentação (19-1-1984), já com a possibilidade de se licenciar do futebol afastada, quem comandou os treinos foi o preparador físico Fred Smania. Após cogitar Bolão, ex-técnico do Taubaté, o Rio Branco acabou fechando com Brasília (24-1-1984).
Um dia antes de voltar aos treinos, o Rio Branco anunciou que não havia chegado a um acordo com o Palmeiras para uma espécie de convênio. O clube paulistano até aceitou liberar jogadores para formar o elenco do Tigre – e até existia a possibilidade de João Leal Neto, homem de confiança do técnico Carlos Alberto Silva no Palmeiras, ser o treinador do Rio Branco –, a partir de março, o que o presidente Tchida Marin não aceitou.
Para reforçar a equipe, o Rio Branco sonhou em março com Gersinho, ídolo do União Barbarense, um negócio que não deu certo e ainda gerou rusgas entre as duas diretorias. Diretor de futebol do União, o radialista Natale Giacomini afirmou que o Rio Branco só teria Gersinho por Cr$ 120 milhões, descartou empréstimo e ironizou a proposta do rival, sem revelar qual era.
“Não vamos vender nosso craque em troca de pouco dinheiro e jogadores como Baleia e Du, como quer o Rio Branco. Aceitaríamos conversar caso o clube de Americana aceite incluir na negociação um Sarandi, um Marquinhos, por exemplo, e sei que isto eles não querem”, disse o radialista.
Marin respondeu que a proposta do Rio Branco era até para ajudar o rival financeiramente, tirando “um peso das costas do União”, o salário de seu principal jogador. Segundo ele, o próprio Natale havia oferecido de graça o goleiro Gilmar para baixar a folha de pagamento, e que nunca iria se aproveitar da situação financeira difícil do União para tirar esse ou aquele jogador do rival.
Sobre o negócio, descartou envolver Sarandi e Marquinhos, que, segundo ele, valiam mais individualmente que Gersinho, e deixou claro que não havia a menor chance de pagar os Cr$ 120 milhões que o União queria. O negócio não saiu.
Os incidentes da partida contra o XV de Piracicaba em 1983 deixaram suas marcas na temporada de 1984. O Tigre estreou na 2ª Divisão no Victório Scuro, já que o Décio Vitta estava interditado. Em campo, o time não conseguiu repetir o bom futebol do ano anterior. Fez uma péssima campanha na 1ª fase, quando foi o penúltimo colocado. No meio do ano, um treino chegou a ser cancelado (7-6-1984) para que os jogadores pudessem seguir em excursão a Aparecida do Norte para pedir bênção.
O time conseguiu reagir na 2ª fase e acabou arrancando a vaga na bacia das almas, com uma vitória fora de casa sobre o Palmeiras, de São João da Boa Vista, na última rodada (19-9-1984). Para se classificar, o Rio Branco dependia também de um tropeço do Independente diante do Primavera. E Marin não fez questão nenhuma de esconder uma mala branca inusitada (12-9-1984): jogaria de graça um amistoso contra o Primavera com renda total para o clube de Indaiatuba porque não tinha dinheiro para dar. Esse jogo nunca aconteceu.
O desempenho, nas duas primeiras fases, mostrou que o time não estava pronto para enfrentar a 3ª fase. Contra equipes melhores, o Tigre amargou a lanterna e a eliminação com três rodadas ainda por jogar.
O ano de 1984 também ficou marcado pelo primeiro patrocínio de camisa da história do Rio Branco, que foi a Ripasa, mas poderia ter sido o Café Cassiano. A expectativa do Rio Branco era fechar com a empresa por Cr$ 9 milhões, o que seria suficiente para bancar todos os gastos até o final do ano de material esportivo, bolas e chuteiras. Em troca, estamparia a marca na camisa. O negócio não deu certo diante da oferta da empresa de Cr$ 200 mil por mês, valor considerado irrisório pelo Rio Branco.
No mesmo dia no qual disse não ao Café Cassiano (17-2-1984), o Rio Branco fechou uma parceria com a Ouro Verde, que não pediu nada em troca para fornecer ônibus ao clube para todos os jogos e amistosos ao longo do ano.
O acordo com a Ripasa foi fechado dois meses depois (18-4-1984) por um valor muito superior ao que o clube esperava receber do Café Cassiano, Cr$ 21,6 milhões por 12 meses. As negociações com a Ripasa haviam começado em fevereiro e a empresa só deu o aval para o acordo dois meses depois.
Em uma cerimônia ao lado de Marin e de Francischangelis, o diretor da Ripasa, Silvio Rachid, anunciou o primeiro patrocínio da empresa para um esporte profissional e prometeu, para o ano seguinte, a contratação de uma jogadora de basquete e uma de vôlei com nível de seleção brasileira, abrindo ainda a possibilidade de patrocinar também o handebol. Alguns dias depois, o Rio Branco estreava o patrocínio, no peito e nas costas, contra o Derac (6-5-1984).
Junto ao patrocínio, veio um concurso no qual o torcedor que quisesse concorrer a um jogo de camisas teria de apresentar – enviando ao jornal O Liberal – o melhor desenho de camisa. No início de outubro, foi escolhida uma camisa com faixas largas, como o uniforme do Flamengo. O prêmio anunciado para o vencedor, o estilista Humberto Macetti, foi de Cr$ 200 mil.

O patrocínio da Ripasa deixou sequela e mais um adeus ao clube. Cinco dias depois do anúncio (23-4-1984), o ex-presidente Delcio Dollo pediu demissão do cargo de conselheiro. Segundo ele, o clube não deveria aceitar o dinheiro porque a Ripasa estaria tentando usar o clube apenas para fazer política de boa vizinhança com Americana.
Em carta aberta, após 15 anos como conselheiro, disse que a empresa era sinônimo de poluição, doença e descaso para com 130 mil habitantes da cidade. “Se o Rio Branco não possui condições materiais para se autossustentar como time de futebol, que se busquem meios razoáveis para sua manutenção, ou mesmo que se encerre tal atividade. Jamais, porém, pode-se admitir venda da consciência no afã de conseguir recursos”, disparou Dollo.
“Afasto-me, neste preciso instante, do Rio Branco, estarrecido. Os caminhos buscados por sua atual diretoria são, inquestionavelmente, muito diversos daqueles percorridos pelo clube ao longo de toda sua existência”, continuou.
Como previam as recentes normas da CBF em relação à propaganda no futebol, a decisão de estampar ou não uma marca na camisa deveria passar pelo Conselho Deliberativo, nada que no Rio Branco mudasse o que a diretoria já havia anunciado.
Em 1984, o Rio Branco também negociou com a Empresa Publicitária Promoação, do narrador Luciano do Valle, a quem dirigentes do Rio Branco foram apresentados através do narrador Jota Júnior, irmão de Pedro Francischangelis. O objetivo era ajudar na procura por empresas interessadas em patrocinar o clube.
Outro acordo inédito na história do Rio Branco foi o de cessão de material esportivo. Em um acerto inicial na casa dos Cr$ 3 milhões, após dois anos buscando uma empresa que cedesse material esportivo, o clube fechou, durante uma feira no Anhembi, com a Rema Sociedade Anônima (29-5-1984).
A turbulenta temporada também teve uma denúncia de furto. Em outubro, Antonio Garcia, proprietário do Restaurante Barra Limpa, em Americana, acusou os jogadores Dodô e Rubens Paula de furto de maços de cigarros de seu estabelecimento. Em entrevista coletiva, contou que Bispo, Calada, Rubens Paula e Dodô tomavam cerveja em seu restaurante em uma sexta-feira quando, ao saírem, Rubens Paula discutiu com um garçom.
Após a discussão, Garcia deu falta de 12 maços de cigarro e acusou Rubens Paula e Dodô de terem pegado na hora da confusão. Bispo depois confirmou que os companheiros haviam pegado os maços e que, quando soube disso no carro onde estavam, pediu que devolvessem, o que acabou acontecendo. Garcia também cobrou uma dívida de Cr$ 300 mil do clube e de Tornado, que, assim como outros jogadores, frequentava o restaurante.
