Bom futebol e polêmica
Polêmicas das mais variadas entre dirigentes e uma boa campanha na 2ª Divisão marcaram o ano de 1985 no Rio Branco, que chegou muito perto de disputar, pela primeira vez, o quadrangular final, mas acabou eliminado pelo Mogi Mirim com um gol aos 40 do 2º tempo (10-11-1985). Mas, até chegar a esse jogo decisivo, o Rio Branco percorreu um caminho turbulento no último ano de Tchida Marin como presidente do clube.

Em campo, o time disputou dois torneios antes da 2ª Divisão. Primeiro, a Copa Rede Globo/Federação, que reuniu 64 times das três divisões do estado, não sem antes ter de brigar por uma vaga junto à FPF, já que não estava na lista original de participantes, com dirigentes protestando pessoalmente na federação (29-1-1985). De positivo, em um torneio no qual o Tigre parou ainda na 1ª fase, apenas a goleada sobre o Estrela (São Carlos) por 7 a 1. Em seguida, jogou o Quadrangular Fauze Selhe, outro torneio organizado pela federação, vencendo apenas uma partida.
O início de temporada ruim custou o emprego do técnico Tonho, que havia sido contratado no final de 1984. Ele iniciou a temporada apresentando-se junto a 12 jogadores (8-1-1985) e uma nova comissão técnica que tinha apenas um nome que já trabalhava no clube, o roupeiro Peixe Gato. Junto com ele, haviam chegado o massagista Pico e o preparador físico Diógenes Camargo.
No início do ano, a Casa do Atleta, concentração dos jogadores no Cordenonsi, precisou de uma boa reforma, já que as paredes estavam muito sujas, com marcas de tênis e sapatos, o teto estava danificado, portas quebradas e luminárias destruídas.

A Casa do Atleta foi pivô de umas das brigas entre comandantes do Rio Branco. A confusão veio à tona após diretores e Zito se desentenderem pela primeira vez no ano por causa de dinheiro. O meia do Rio Branco foi comunicado (22-1-1985) pela diretoria que não estava nos planos para a temporada, devido a seu pedido salarial, e que poderia procurar um clube para alugar o passe. Não queriam nem que o jogador treinasse com os demais atletas.
Logo depois de ser comunicado disso, Zito esteve ao lado do técnico dos juniores, José Antonio Bressan, em um programa de rádio e criticou a diretoria que, segundo ele, estava “marginalizando os jogadores do ano passado”. Bressan, que havia tido problemas no clube no final de 1984, aproveitou e também criticou o comando. O técnico Tonho também estava falando no programa por telefone e precisou intervir para pedir o fim das “fofocas” no clube.
No treino da tarde naquele dia, Tonho tinha apenas 18 jogadores à disposição e pediu quatro juniores para Bressan, que negou, alegando ordem do diretor de futebol amador, José Carlos Baccan. O diretor Durval Pântano se irritou, discutiu com Bressan e precisou até ser contido no vestiário, mas Bressan bateu o pé e não houve coletivo.
No mesmo dia, Baccan assumiu a ordem para o veto alegando que o fez para provocar uma reunião entre todos devido a problemas entre os departamentos amador e profissional por causa da presença de jogadores juniores na Casa do Atleta. Segundo Baccan, havia pressão de dirigentes do profissional para que os garotos deixassem a casa.

Uma reunião entre todos, no dia seguinte, definiu que os juniores iriam para o alojamento, mas deixou sequelas. Durval Pântano, que havia dito que deixaria o clube se Bressan continuasse, acabou sendo convencido a permanecer, mas não ficaria por muito mais tempo.
O quarteto que iniciou o ano comandando o futebol – David Tunussi, Durval Pântano, Manoel Mendes e Nicola Vedrani, o Nicolino – já não se entendia e Nicolino foi o primeiro a sair, por não concordar com Tunussi, dirigente marcado por ter opiniões fortes e por impô-las sobre os demais, como quando descartou contratar o consagrado Ailton Lira: “Não queremos velharia por aqui. O Ailton Lira não será contratado”, disse, ao descartar o jogador (28-3-1985).
O sonho – que não passou de um sonho – do Rio Branco para a temporada foi outro jogador conhecido nacionalmente, o zagueiro Rondinelli, o Deus da Raça. Em junho, o clube tentou contratá-lo por empréstimo. Rodinelli pertencia ao Vasco, estava sem jogar no Paysandu e esperava proposta para atuar. Marin dizia que era um sonho possível de realizar. Tentou incluir jogadores para abater os Cr$ 25 milhões do valor do empréstimo até o final do ano, mas o negócio não vingou.
Antes de sonhar com Rondinelli, o Rio Branco já havia demitido toda a nova comissão técnica (18-4-1985). Um mês antes (6-3-1985), trocou de médico porque Mauro Bosi alegou problemas pessoais, dando lugar a Luis Antonio Adamson, de 28 anos.
No lugar do técnico Tonho, assumiu Carlos dos Santos, que havia voltado no início do ano como supervisor (8-1-1985), após se desculpar com Fred Pantano pelo desentendimento no final do ano anterior. No lugar de Diógenes Camargo, Fred Smania, mesmo magoado com a forma com que deixou o clube, voltou. Na despedida, Camargo cumprimentou todos os jogadores, menos Cabeça, que dias antes havia dito, quando perguntado, que Smania era melhor que ele.

Além do início de ano turbulento, o Rio Branco também convivia com o mistério dos públicos no Riobrancão, com claros sinais de evasão, apesar de o muro em torno do estádio ter sido praticamente finalizado no ano anterior. No jogo contra o Independente (19-5-1985), o clube esperava de 3 a 4 mil torcedores e renda de Cr$ 15 milhões. A renda de Cr$ 10,1 milhões e o público de 1.987 irritou dirigentes porque a aparência era de que metade das arquibancadas, com capacidade para 11.500 torcedores, estava tomada.
O golpe, segundo Tunussi, era o mais simples possível e contava com a conivência do clube: muita gente pagava ingresso para entrar com o carro no estádio, mas o veículo levava mais três ou quatro pessoas que não apresentavam – e nem delas era exigido – o ingresso.
A renda era uma importante fonte de recursos para o Rio Branco. Para manter o futebol autossustentável, Marin afirmou (15-5-1985) que isso só seria possível com rendas de Cr$ 20 milhões por jogo, o que representava de 4 mil a 4,5 mil torcedores por partida. Segundo ele, o prejuízo mensal do clube até então era de Cr$ 20 milhões, devido aos gastos com futebol e à pouca movimentação social, o que seria revertido com bailes no segundo semestre.
O que ajudou a pagar as contas, no final do ano, foi o patrocínio de Cr$ 50 milhões assinado (31-7-1985) com a Tecelagem Hudtelfa, da família Zabani, até o final da temporada. O dinheiro era suficiente para manter o time pelo restante da 2ª Divisão, ou para, por exemplo, pagar os empréstimos de Cr$ 43 milhões de Tim e Gilberto, que chegaram para a reta final da competição.

Com seu gênio forte, Tunussi também entrou em rota de colisão com Zito, que recusou um aumento oferecido pelo clube em agosto e teria jogado o cheque no dirigente – Zito negou que tivesse feito isso. Tunussi não quis mais saber dele no clube e o afastou. Isso rachou internamente a diretoria, porque muitos defendiam a volta do jogador. Não houve jeito e, depois de um mês afastado, Zito acabou emprestado ao Fluminense, de Feira de Santana-BA, por Cr$ 40 milhões até o final do ano.
O embate entre os gastos para o social e o futebol seguia mais vivo do que nunca. Em entrevista coletiva (8-3-1985), a Comissão de Obras anunciou que, após gastar Cr$ 6 milhões em um projeto para a sede náutica, este seria arquivado por falta de dinheiro. Eram necessários Cr$ 400 milhões para construir piscina, quadras de basquete, vôlei, tênis, casa de lanchas, garagem e salão de baile, entre outras dependências.
A comissão, formada pelo ex-presidente Décio Vitta, João Tamborlin e Altino Cia, defendia a venda da sede social, segundo eles avaliada em Cr$ 1 bilhão, para que os recursos fossem destinados para as obras na sede náutica. Vitta ainda reclamou que a Comissão de Obras não recebia, havia dois anos, os 20% da arrecadação do clube, como determinava o estatuto, e concluiu: “o futebol está gastando perto de Cr$ 48 milhões mensais e, por causa disso, não podemos dar um lazer mais sofisticado aos associados”.
Marin já havia dito que deixaria o cargo se a venda da sede social fosse concretizada, porque considerava inviável o sócio ter de se deslocar cerca de dez quilômetros para frequentar o clube e que, além disso, o valor não era Cr$ 1 bilhão, mas Cr$ 2,4 bilhões. Marin também negou os tais Cr$ 48 milhões mensais – eram Cr$ 25 milhões, segundo ele, bem acima dos Cr$ 15 milhões planejados no ano anterior – e lembrou que a verba para a Comissão não era repassada havia sete anos, e não dois, período inclusive com Vitta como presidente.
O único dinheiro anunciado para obras na sede náutica foi a arrecadação de um show do Balão Mágico, de cerca de Cr$ 5 milhões, em um domingo pela manhã no Riobrancão (24-4-1985), para construir o terceiro minicampo e dar início à obra de um quiosque.

Foi o último ano de Marin como presidente do clube. Em entrevista para O Liberal (1-12-1985), fez um balanço de sua gestão destacando o aumento do quadro associativo (de 1,8 mil sócios em 1983 para 3 mil titulares e 8 mil dependentes); uma noite recorde de público no Carnaval (7 mil pessoas, em 1984), o que o fez ampliar o salão da sede; os muros do estádio; a redução da folha de pagamento do clube com a troca de funcionários mais antigos e com altos salários; e o fato de deixar o clube ao seu sucessor sem qualquer dívida.
O sucessor era o seu ex-vice, Fred Pantano, que havia entregado este cargo meses antes (29-8-1985) porque queria a rescisão do contrato de Zito, e não apenas a suspensão, como foi feito. Pantano chegou a discutir duramente com Edemil Bertallia, que defendia a permanência do jogador. Após reunião na qual Marin decidiu pela suspensão, Pantano entregou sua carta de renúncia em “caráter irrevogável”.
A eleição do Conselho Deliberativo quase teve chapa única, quando Pantano e seu adversário, Narciso Nascimento, o Gergelim, chegaram a conversar para uma composição (19-11-1985). Mas foram mantidas as duas chapas e a de Pantano, a Continuação, venceu por 311 a 187. Na eleição a presidente dentro do Conselho (9-12-1985), Pantano venceu com 34 votos, contra dez de João Feltrin, três de Décio Vitta, dois de Edson Bassette, cinco brancos e dois nulos. A posse seria em 2 de janeiro de 1986.
O novo presidente começou então a definir sua equipe de trabalho. Primeiro foi o gerente de concessionária de veículos Antonio Carlos Camargo, 35, novo secretário geral da diretoria no lugar de Jorge Arruda Guidolin, e Carlos dos Santos mantido como supervisor para 1986. O primeiro vice seria João Feola e o segundo, José Giácomo Amádio, o Jacó Amádio.
O futebol ficaria nas mãos novamente de Tunussi. Marin foi convidado para comandar o futebol junto a Tunussi, mas não aceitou. Quem assumiu foi Lairço Pegorari, que aceitou o convite para também ser diretor de futebol (10-12-1985).
Dois amistosos merecem registro em 1985, ano em que os profissionais do Rio Branco enfrentaram a seleção brasileira de juniores (23-6-1985), que se preparava para o Mundial (no qual seria campeã) e empataram em 0 a 0 no Décio Vitta. O outro, no mesmo estádio, foi entre os juniores do Rio Branco e do Bayern de Munique (19-1-1985), que terminou também empatado, em 4 a 4, diante de 68 pagantes.

