Começa a era Sardelli
O primeiro ano de Chico Sardelli como presidente foi marcado tanto por uma busca frenética por apoiadores para manter as modalidades esportivas do clube quanto por um desentendimento atrás de outro envolvendo jogadores e técnicos. O resultado disso, ao final da temporada, foi o futebol conseguindo pagar suas contas sem usar, segundo o presidente, todo o valor a que tinha direito (25% da receita do clube), uma campanha razoável na Divisão Especial e uma série de manchetes nos jornais da cidade escancarando os problemas internos do elenco.
O início da temporada foi preocupante. Vice-presidente de futebol, Tchida Marin logo deixou claro que o Rio Branco não tinha dinheiro algum para contratar jogador (10-1-1989) porque a prioridade no clube era finalizar as obras para liberar o parque aquático da sede náutica até fevereiro, devido ao verão.
As constantes notícias de que não havia dinheiro no clube para reforços fizeram o presidente Chico Sardelli antecipar, em uma semana, o fim de suas férias para começar a visitar empresas de médio e grande portes em busca de apoio. Buscando tranquilizar a todos no clube, Sardelli anunciou (16-1-1989) a primeira adesão de um programa de carnê que nem havia sido lançado ainda, com o apoio da Amequim Indústria e Comércio de Produtos Químicos.


O programa foi lançado no mês seguinte (17-2-1989) dentro da política de Sardelli de não pedir muito para poucos, mas pouco para muitos. As empresas que aderissem ao projeto Carnê do Tigre teriam placas no clube e em troca pagariam uma mensalidade. O objetivo era ter o apoio de 250 empresas. Menos de um mês depois, o Rio Branco publicou um anúncio no jornal O Liberal (11-3-1989) agradecendo e nomeando 52 empresas que já estavam ajudando o clube.
Com Edison Fassina, vice-presidente de esportes amadores, à frente da maioria das negociações, o clube foi fechando um acordo atrás do outro para apoiar as modalidades esportivas. A primeira foi a Vicmartex, para o futebol júnior (27-1-1989). Outras vieram na sequência: SAP Seguros, handebol feminino (16-2-1989); Têxtil Electra, futebol de salão (21-2-1989); Fatex, vôlei masculino (10-3-1989); Radial Renovadora de Pneus, hóquei sobre patins (15-3-1989); Fábrica de Tecidos Nella, basquete masculino infantil (29-3-1989); Unimed, futebol júnior, juvenil e infantil (15-5-1989), patrocínio que veio junto a um contrato de convênio médico para funcionários, jogadores e comissão técnica; e Adonis Impressos, natação (22-6-1989).
Mas o grande apoio privado que o Rio Branco teve em 1989 foi a volta do patrocínio da Ripasa S.A. Celulose e Papel para o futebol profissional. O acerto foi anunciado primeiro pelo diretor superintendente da empresa, Osmar Elias Zogbi, e horas depois confirmado por Sardelli (8-3-1989). A cerimônia de assinatura de contrato (22-3-1989), com a apresentação das novas camisas com o logotipo da Ripasa, teve a presença do primeiro escalão do clube e da empresa, inclusive do presidente Abrahão Zarzur. No final do ano, o contrato foi renovado para a temporada seguinte (12-12-1989).
Outra grande empresa que iniciou uma fase de apoios financeiros ao clube foi a Vicunha. Com o vice-presidente Roberto Faé à frente das negociações, o Rio Branco conseguiu ajuda financeira do diretor superintendente do grupo, Benjamin Steinbruch, para contratar reforços para a Divisão Especial (6-6-1989). Em troca, o clube colocaria no estádio duas placas da Vicunha e duas da Fibra.
Todo esse trabalho em busca de apoio foi determinante para que, no final do ano, Sardelli ressaltasse que não havia sido preciso nem usar os 25% aos quais o futebol tinha direito da arrecadação do clube. Esse percentual havia sido decidido na mesma reunião (25-1-1989) na qual foram homologados os novos vices (Roberto José Faé, José Milani Filho, Cláudio Froner, Edson José Bassette, Tchida Marin, Edison Fassina e Edilberto de Paula Ribeiro) e diretores, contando com uma novidade, o empresário e vereador José Zazeri.


Cotado para ser candidato a presidente na eleição anterior e presidente do Unidos da Cordenonsi por nove anos, ele acabou aceitando o cargo (13-1-1989) no departamento de futebol para trabalhar ao lado de Edemil Bertallia, Pedro Luiz Francischangelis, Raphael Vitta e Lairço Pegorari.
O Conselho decidiu, nessa mesma reunião, a seguinte divisão do dinheiro do associado: 25% para o futebol, 10% para a sede náutica, 5% para o social, 10% para os esportes amadores, 5% para o marketing, 20% para a comissão de obras e 25% para despesas administrativas. Na mesma noite, aumentou as mensalidades dos associados para NCz$ 10 (patrimonial) e NCz$ 5 (individual).
Se financeiramente a estrutura conseguiu girar, o ambiente no futebol passou longe do ideal. A permanência na Divisão Especial já incomodava o Rio Branco, que entrou em campo na temporada de 1989 com o objetivo de subir. Fez uma campanha razoável, mas não conseguiu trabalhar em paz.
Após insistentes pedidos do técnico Walter Zaparolli, o Rio Branco trouxe Luis Carlos Oliveira, o Bolão (12-4-1989), para ser o supervisor de futebol, justamente com a função de administrar o extracampo. Ex-técnico de Matsubara e Votuporanguense, Bolão, que havia trabalhado como supervisor no Santos e no Noroeste, ficou pouco mais de um mês, trocando o Tigre pelo São Paulo (15-5-1989).
Cinco dias depois, Marin teve de conter um princípio de rebelião no Florença Palace Hotel (20-5-1989), onde os jogadores se concentravam, definindo que o elenco teria aumento de 28,8% nos salários a partir de 1º de junho. Em tempos de alta inflação, havia um acordo de que os jogadores teriam um reajuste a cada três meses.

Precisando de um supervisor de futebol, o clube foi atrás de um velho conhecido, Afrânio Riul, que, logo em sua chegada (31-6-1989), foi claro ao dizer que não queria mais ser treinador. Ele estava desempregado depois de haver deixado o cargo de gerente de futebol do Botafogo, em março.
O time oscilava em campo e o clima não era bom fora dele. Os problemas começaram a ficar mais aparentes quando Valdir Dias e Jânio abandonaram o banco de reservas antes do final da partida contra o São Bernardo (16-7-1989). Valdir Dias, que já havia se desentendido com o goleiro reserva Nilton, foi dispensado por ser reincidente. Jânio, multado em 40% do salário.
Nilton escancarou ainda mais o clima quando, em entrevista para O Liberal (10-8-1989), disse que o elenco estava rachado. “Estou cansado de dizer que uma equipe tem que ter bandido dentro do gramado e não fora dele, e aqui no Rio Branco a situação é inversa”, disparou.
Walter Zaparolli havia acabado de pedir demissão. O técnico chorou diante de jornalistas, confirmou a desunião do elenco e afirmou achar melhor ir embora. O volante Luis Gustavo havia sido dispensado em meio a todo esse clima ruim e nem um pedido dos jogadores para que fosse reintegrado após a demissão de Zaparolli comoveu a diretoria.
Os jogadores se reuniram com a imprensa cinco dias após a saída do treinador porque não queriam que ele saísse como herói e eles, jogadores, os vilões da história. Reclamaram por terem que atuar fora de posição e de falta de diálogo. Sem clima no clube com a saída do pai, o filho de Walter, Dino Zaparolli, treinador de goleiros, seguiu o mesmo caminho três dias depois.
A confusão também marcou a saída de um diretor de futebol. Lairço Pegorari, que havia voltado, pediu demissão em caráter irrevogável (15-8-1989). Falou em “igrejinha” para derrubar Zaparolli. Uma semana antes, havia acusado Diogo, Jânio e Luis Gustavo pelo clima ruim dentro do elenco, o que levou à dispensa do volante.
No final de agosto, Sidnei Polli, de Campinas, assumiu o lugar de Dino. Outro que saiu foi o massagista e enfermeiro Clóvis Vesco, em uma reestruturação do departamento médico e a necessidade, segundo o clube, de um profissional 24 horas por dia no estádio. Daniel da Silva chegou para a função.
Luiz Carlos Ferreira assumiu como treinador, mas o clima não melhorou. Diogo, que havia pedido para ser dispensado após a acusação de Pegorari de que era um dos líderes de “igrejinha”, teve problemas com o novo treinador. Luiz Silvio também. Após ser substituído contra a Ponte Preta (29-10-1989), atirou a camisa no chão e disse que não jogaria mais sob o comando de Ferreira. No dia seguinte, teve seu contrato rescindido. Ferreira era tido como um técnico autoritário entre os jogadores.
Com altos e baixos e um extracampo conturbado, o Tigre liderou o seu grupo na 2ª fase, mas, quando entrou em campo pela 3ª fase, que valia vaga na semifinal, acabou sucumbindo diante de Francana e Ponte Preta.
Com o Rio Branco já eliminado, Marin anunciou sua saída do cargo de vice de futebol (13-11-1989), por problemas de saúde e para cuidar de suas empresas. Abriu caminho assim para que Raphael Vitta, o Minão, assumisse o cargo (21-11-1989). Minão chegou a anunciar, três dias depois, os seus três diretores de futebol: Pedro Luis Francischangelis, Manoel Mendes e Reginaldo de Mazzer Papa, mas este recusou dias depois.
O Rio Branco tentou em 1989 ser incluído na Copa São Paulo do ano seguinte, mas não teve sucesso. O único representante da Divisão Especial no torneio de juniores seria o Nacional. Foi em 1989 que surgiu uma das mais tradicionais torcidas do Rio Branco, a Malucos do Tigre, que acabou anos mais tardes sendo o único grupo organizado de torcedores do clube.
Foi um clube japonês, em 1989, o primeiro adversário do Rio Branco em uma partida internacional de sua história. O Tigre venceu amistoso contra o Hitachi (atual Kashiwa Reysol) por 1 a 0 (21-6-1989). Dias antes havia firmado um convênio com outro clube japonês, o Yamaha, para intercâmbio de jogadores – Sawa Toshihiko, 21, ficou treinando no Tigre por um tempo.
O Rio Branco decidiu também seguir com as obras para levar mais estrutura à sede náutica e atrair novos associados. Apresentou um plano (18-8-1989) para ampliar as dependências com um sistema viário interno, novos minicampos, quadras, estacionamento para 420 veículos, piscinas, quadras de squash, tênis, berçário, bocha e mirante, muito do que sairia do papel nos anos seguintes. O campeonato de minicampo daquele ano teria o nome do ex-presidente Delcio Dollo, que recusou a homenagem (1-6-1989) após deixar o clube brigado em 1984.
Em 1990, antes do acesso, O Liberal fez uma pesquisa junto a torcedores, dirigentes, ex-dirigentes, jornalistas, radialistas e esportistas para eleger o time ideal do Rio Branco dos anos 80. A formação teve Silvio Luis; Odair, Ailton Luis, Ari e Dodô; Sony, Dau e Pianelli; Cássio, Paulinho Paraná e Bispo. Afrânio Riul foi eleito o melhor técnico e Ercides, o jogador-símbolo.
