Prioridade: o estádio
Vistoria. Essa palavra tirou o sono dos dirigentes do Rio Branco durante boa parte do primeiro ano do clube na 1ª Divisão do futebol paulista. Depois de tanto lutar para subir, o Rio Branco deparou-se com prazos apertados e pouco dinheiro para atender a todas as exigências da FPF para os estádios de clube da elite. Rivais que não haviam conquistado o acesso acompanhavam de perto qualquer problema para tentar cavar um lugar na 1ª Divisão.
A segunda parcela que a prefeitura havia prometido para o início do ano, de Cr$ 2,5 milhões, nunca veio. Seis dias antes da primeira vistoria do ano pela federação (9-1-1991), o Rio Branco calculava que precisava de Cr$ 16 milhões e funcionários trabalhando 24 horas por dia para fazer a primeira entrega, que envolvia a ampliação das arquibancadas e a construção do fosso.
O clube estudava pagar Cr$ 2 milhões para colocar uma estrutura metálica – além de um aluguel de Cr$ 500 mil – como medida provisória para ter a capacidade mínima necessária, o que acabou se concretizando por um curto período.
Em maio, dois meses antes do início do Paulistão, a preocupação era tão grande que o Rio Branco pediu para o gerente do Departamento Técnico da FPF, João Atalla, uma visita técnica para análise das obras. “Do jeito que está, o Rio Branco vai encontrar muitas dificuldades para ter o estádio aprovado e consequentemente disputar o Paulistão”, afirmou Atalla.
Uma das últimas vistorias estava prevista para dia 31 daquele mês e Atalla listou 17 obras necessárias para liberação do estádio e a consequente confirmação do Tigre na 1ª Divisão, envolvendo muros, alambrados, portões, bilheterias e saídas de emergência.
As obras estavam orçadas em Cr$ 10 milhões e a diretoria saiu vendendo cotas de CR$ 120 mil para que empresas ajudassem o clube. Oito dias antes da vistoria, havia 50 cotas vendidas e o clube buscava mais 100. A obra tinha 50 funcionários trabalhando direto (28-5-1991). Muitas empresas ajudaram. A Ripasa, que havia dobrado o valor do patrocínio (2-3-1991), antecipou parcelas. A Nitroquímica, do Grupo Votorantim, voltou a fazer uma doação (16-4-1991), desta vez de mil sacos de cimento, avaliados em Cr$ 1,13 milhão (US$ 4 mil).
Em paralelo, a corrida para iluminar o estádio também enfrentava problemas. Depois de uma longa novela, o clube recebeu o dinheiro do estado, de Cr$ 27 milhões (30-1-1991). Com a inflação, o valor suficiente no ano anterior para bancar toda a obra custeava apenas metade dela, orçada em R$ 53,5 milhões.
Sardelli ordenou o início imediato, fazendo tudo o que era possível com aquele dinheiro, como a ligação da rede elétrica até o transformador atrás das cabines e a construção de quatro torres, duas de 24 e outras duas de 34 metros de altura. Do projeto original ainda faltariam holofotes, lâmpadas e conectores. A diretoria tentaria que o estado complementasse o valor, iniciativa que não deu resultado.

Mesmo com dinheiro só para metade da obra, Sardelli prometeu a iluminação pronta (17-4-1991) até dia 5 de maio. O clube arcaria com os cerca de Cr$ 25 milhões necessários para finalizar a obra e, além de dinheiro da Vicunha, contava com a renda dos amistosos que faria contra Palmeiras e São Paulo.
Os refletores foram acesos pela primeira vez de fato em maio (15-5-1991), e assim ficaram das 18h20 às 19h30. Dias depois, o Tigre entrou em campo pela primeira vez com o estádio inteiro iluminado (7-6-1991), não para um jogo, mas para um coletivo, entre 20h45 e 22h, realizado à noite justamente para testar novamente a iluminação. A novidade atraiu cerca de 800 pessoas ao treino.
Depois de gastar cerca de Cr$ 350 milhões (cerca de US$ 1 milhão) em obras no estádio que começaram no ano anterior, o Rio Branco enfrentou o Palmeiras no primeiro jogo noturno da história do Décio Vitta (11-6-1991), um novo estádio não só pelos 64 refletores, mas pela estrutura em geral.
O clube construiu 450 metros lineares de muro do fosso, com 3 metros de altura; 3 mil metros quadrados de área interna asfaltada; mais bilheterias e entradas; abrigo para o ônibus adversário sob a arquibancada; novos sanitários e bares; aterro do gramado e terraplanagem na área interna; novas cabines de imprensa; camarotes; linha telefônica instalada no campo e nas cabines; túnel exclusivo para juiz ao seu vestiário; e uma maior área para aquecimento do adversário.
A Banda Monsenhor Nazareno Magi abriu as festividades e uma placa foi descerrada diante de diversos políticos, entre eles o prefeito Waldemar Tebaldi e o ex-deputado Ralph Biasi. Em meio à festa, o presidente da FPF, Eduardo José Farah, garantiu: o estádio precisava de pequenos ajustes, mas estava aprovado e não havia a menor chance de o Rio Branco não disputar a elite paulista. Para ele, o Décio Vitta era melhor que qualquer estádio carioca, exceto o Maracanã.
Outra alteração no estádio em 1991 foi o início da instalação de cadeiras no setor coberto do estádio, mas para isso o Rio Branco queria a ajuda dos proprietários das cativas. O clube instalou 14 cadeiras para mostrar aos 1.510 proprietários (11-7-1991) e buscar pelo menos 60% de adesão.
O proprietário, para instalar a cadeira em seu lugar, pagaria uma taxa de Cr$ 18 mil em duas parcelas. Quem ainda não tivesse uma cativa pagaria Cr$ 150 mil em três parcelas. Segundo o diretor social Antonio Carlos Duarte, a adesão chegou a 50%. Com isso, o clube comprou 1.842 cadeiras (29-8-1991) para instalá-las até a primeira quinzena de setembro.
O Rio Branco seguiu buscando e conseguiu ajuda na iniciativa privada. Para as modalidades amadoras, teve Oyapoc no atletismo (18-6-1991), Santista no vôlei masculino (25-6-1991), Tabacow no handebol masculino (25-6-1991), Fibra na natação (29-6-1991), Degussa no vôlei feminino (3-7-1991) e Goodyear no tênis e judô (9-7-1991). A Goodyear também resolveu investir no futebol, pagando um valor mensal em troca de placas no estádio.
Depois de iniciar o ano com uma dívida na casa dos Cr$ 40 milhões, o Rio Branco conseguiu estrear no Paulistão (24-7-1991) com apoio de grandes empresas, como Vicunha, Ripasa, Goodyear, Nitroquímica e Hoechst. A Vicunha não só renovou o patrocínio (12-3-1991), como também ajudou na contratação do goleiro russo Yuriy, que atraiu a atenção da imprensa para Americana (26-3-1991).
Durante a Divisão Especial de 1990, em junho, Farah havia anunciado, na Itália, que o Campeonato Paulista do ano seguinte seria dividido em dois grupos. O principal deles teria as equipes mais fortes. O outro seria formado pelas piores equipes do campeonato de 1990, além das que ainda conquistariam o acesso naquele ano.
Assim, o Rio Branco jogou a Divisão Especial já sabendo que, se subisse, teria pela frente equipes mais fracas e não enfrentaria os grandes, exceção feita ao São Paulo, que fez péssima campanha no Paulistão de 1990, competição que não previa o rebaixamento em seu regulamento. O grupo mais fraco, onde estava o Rio Branco, é o que acabaria, anos depois, dando origem à Série A-2. Mas o Tigre logo deixou esse grupo (em 1992) e escapou de ser rebaixado no tapetão, como ocorreu com tantas outras equipes.
Antes de estrear no Paulista, o Tigre preparou-se com amistosos e no Torneio Seletivo Benedito Teixeira, que pode ser considerado uma espécie de 3ª Divisão do Campeonato Brasileiro – o clube confirmou participação no ano anterior (15-12-1990). A competição garantia aos três primeiros colocados vaga na Série B do Brasileiro do ano seguinte. O Tigre chegou até a última rodada com chances, embora remotas, de classificação, mas, mesmo que tivesse vencido o União São João (26-5-1991), não teria se classificado.

O Rio Branco iniciou a temporada com Afrânio Riul no comando. Com propostas parecidas de Ponte Preta e Santos, resolveu seguir o coração e renovou com o Rio Branco (11-1-1991). Ele iniciou os treinos (5-2-1991) com 36 jogadores e alguns já foram liberados. Dirigiu o time no primeiro semestre e pegou todos de surpresa quando, logo depois da estreia no Paulistão, aceitou uma proposta do Araçatuba (25-7-1991) pela questão financeira.
Dois dias depois, esteve no clube para se despedir de todos e chorou. “Se fosse pelo lado afetivo, jamais deixaria o clube e a cidade”, afirmou, contando que, ao chegar a Americana naquele dia, seguiu até a banca ao lado do Cemitério da Saudade para comprar um jornal. A dona da banca então o abraçou e, chorando, pediu para que não fosse embora.
O clube teve, ao longo de 1991, outras mudanças no futebol, que, no final de 1990, voltara a ter Reginaldo Papa como um de seus homens fortes (14-12-1990). Marcos Antonio Leme, 33, que estava no Mogi Mirim, assumiu como treinador de goleiros (2-4-1991) no lugar de Sidnei Polli, que foi para a Portuguesa. Paulo Ramos, jornalista e ex-assessor do PDT e do PDS, chegou em junho para ser o novo supervisor de futebol – antes, o cargo tinha sido de Dorival dos Santos, que chegara (16-2-1991) após trabalhar no Guarani.
Daniel Silva, massagista que havia chegado em 1989, acabou demitido (17-9-1991). E o enfermeiro Edson Carlos Tibúrcio, por indicação do técnico Rubens Minelli, chegou e inovou dentro do clube com sessões de acupuntura. Na base, Mauri Gagheggi Albers, o Muri, chegou para ser coordenador do juvenil e do infantil (7-1-1991). Uma semana depois (14-1-1991), Diolei Candido assumiu como técnico do juvenil após trabalhar no XV de Piracicaba.
Antes do Paulistão, o Rio Branco tentou contratar o volante Ademir, do Cruzeiro, e sonhou com Gilberto Costa, sem sucesso. Aritana, com o cartaz de substituto de Pianelli, chegou no início do ano (25-1-1991) na negociação de Macedo, que primeiro foi emprestado ao São Paulo, depois negociado em definitivo com o clube do Morumbi após tentativas de Corinthians e Palmeiras de contratá-lo. Foi à época a maior venda já feita pelo Rio Branco, um negócio total de US$ 550 mil (US$ 450 mil em dinheiro). Macedo tentou emplacar um “herdeiro” no Rio Branco, seu irmão Donizetti, mas, após um período de testes, ele acabou dispensado.
No Paulistão, o objetivo do Rio Branco era claro. Queria ficar entre os seis primeiros colocados para, no ano seguinte, disputar o grupo mais forte. Até a última rodada, o Tigre ainda tinha chances, mas a 8ª posição acabou frustrando a todos no Décio Vitta, já que o time voltaria a jogar no grupo mais fraco no ano seguinte.
O último ano de Sardelli como presidente foi também o último de um mandato de três anos. No final do ano, ele lançou Armindo Borelli (8-11-1991) como seu candidato à sucessão, com Fassina assumindo a vice-presidência de futebol. Borelli aceitou com uma condição: o mandato deveria ser reduzido de três para dois anos, o que precisaria passar pelo Conselho Deliberativo.
Em uma assembleia rápida (12-11-1991), o desejo de Borelli foi atendido por 39 votos a 4. Os votos vencidos foram de Atair Martins, Fred Pantano, Miguel Dilarri e Antonio Luro. Além disso, foi aprovada também a possibilidade de uma reeleição, por sugestão de Walter Carlos Bartels.
A nova chapa de conselheiros, a Continuação, com 30 efetivos e 30 suplentes, foi aclamada em uma assembleia (30-11-1991) esvaziada. Dos 4.283 associados aptos a votar, só 65 – quase todos membros da chapa – foram ao clube. Sem concorrente dentro do Conselho, Borelli foi aclamado por 54 conselheiros (3-12-1991) para assumir o clube no dia 1º de janeiro de 1992. Borelli tinha 55 anos e quase metade deles – 25 – como sócio do Rio Branco. Houve disputa para a presidência do Conselho, com Reinaldo Bernardi voltando a ser eleito ao derrotar Douglas Guzzo por 29 a 25.
Borelli já havia definido seus vices – faltava apenas o social – com Francisco Rangel (administrativo), José Milani Filho (financeiro), Fassina (futebol), José Carlos Baccan (esportes amadores), Vilson José Tescaro (sede náutica) e Edilberto de Paula Ribeiro (marketing).
Também já sabia que teria baixas no futebol. Minão havia decido sair e Pedro Francischangelis, que ficou um tempo afastado no início do ano por problemas de saúde, resolveu cuidar de seus afazeres particulares e profissionais. Gerson Silva seria um diretor forte no futebol do clube, que também ganharia o superintendente da Fibra, Rubens Monteiro, no departamento, atendendo a pedido de Benjamin Steinbruch, do Grupo Vicunha.
Um jantar no clube (20-12-1991), com show de Roberto Miranda, marcou o fim da era Sardelli. Foi quando ele recebeu, pessoalmente, pela primeira vez, o convite de Farah para ser um representante da federação no interior – o que acabaria se concretizando. Sardelli discursou por 32 minutos e chorou. Minão também se emocionou.
O ano de 1991 também marcou a morte de um gandula que entrou para o folclore do futebol de Americana. O pintor Rodolfo Cruz, conhecido como Repolho, foi esfaqueado na passagem de ano, dia 1º, durante um show na Praia dos Namorados. Famoso por salvar um gol do Taubaté no Décio Vitta (20-9-1987), morreu aos 23 anos. Segundo o tecelão José Carlos Rodrigues Pedroso, o Zequinha, 25, que confessou o crime, um amigo seu atirou uma garrafa que caiu ao lado de Repolho, o qual teria partido para cima com um porrete. Na confusão, acabou esfaqueado em uma noite com mais seis pessoas feridas a faca no local.
