Uma base de respeito
Mineiro, Marcelinho Paraíba, Alexandre, Sinha e Marcos Assunção. Todos tiveram grandes carreiras no futebol. Todos estavam juntos na Copa São Paulo de 1996 vestindo a camisa do Rio Branco, que enfim conseguiu disputar, pela primeira vez, a principal competição de base do futebol brasileiro.
O trabalho na base, que tornou o Rio Branco conhecido nacionalmente, estava consolidado e o Tigre decidiu que iria bancar alojamento, transporte e alimentação de outros três clubes para ter o direito de ser uma das sedes e, consequentemente, disputar o torneio.
Sob o comando de Adailton Ladeira, que havia substituído Wilson Carrasco no ano anterior, o time fez boa campanha, parando apenas nas quartas diante do Nacional, com uma derrota por 2 a 0 (19-1-1996). Não foi a única vez que a base se mostrou forte na temporada.
Nos aspirantes, o Rio Branco ficou pelo segundo ano seguido com o vice-campeonato. Na última rodada, o time bateu o América por 4 a 0, gols de Pena, Márcio, Clébson e Ednaldo, no Décio Vitta (5-4-1996), e só não ficou com a taça porque o Guarani fez 6 a 2 sobre o Araçatuba. Guarani e Rio Branco terminaram com 29 pontos, mas, por ter uma vitória a mais (nove a oito), o Bugre ficou com o título. O vice rendeu prêmio de R$ 40 mil ao Tigre. Apesar da boa campanha, Ladeira acabou sendo demitido logo depois (16-4-1996), sem entender o motivo. Segundo a diretoria, ele não se encaixava na filosofia que o clube queria implantar na base.

Sorte melhor teve a equipe juvenil, que levantou o título estadual, vingando-se do algoz da temporada passada, o São Paulo. Sob o comando de Candinho, o Rio Branco eliminou a Ponte Preta na semifinal após vencer nos pênaltis por 5 a 3, depois de dois empates em 1 a 1. Na decisão, perdeu o primeiro jogo no CT da Barra Funda por 3 a 1 (30-11-1996). O gol do Tigre foi de Sandro Hiroshi, que também já frequentava a seleção brasileira sub-17 – foi convocado pelo técnico Carlos César para amistosos de preparação para o Sul-Americano do Paraguai (8-8-1996).
Na volta (7-12-1996), no Décio Vitta, o Tigre precisava de uma vitória por qualquer placar para levar a decisão para os pênaltis. Igor e Sandro abriram 2 a 0. Hilton descontou, Anailson fez 3 a 1 e Fabinho fez o segundo do São Paulo já no final da partida. Nos pênaltis, brilhou a estrela do goleiro Gustavo, que logo subiria para o profissional. Ele pegou quatro pênaltis (Hilton, Índio, Arisson e Rogério) e coube a João Paulo converter a cobrança que deu o título ao Rio Branco. Em 22 jogos, foram 12 vitórias, sete empates e três derrotas, com 59 gols marcados, 16 deles de Anailson.
Ao mesmo tempo em que colecionava bons resultados em campo, o clube também tinha de administrar os garotos. Com entrada livre nos bailes da sede social, Marcelinho, Pena e Sinha envolveram-se em uma grande briga em “Uma Noite na Jamaica” (14-11-1996) e precisaram se explicar à diretoria.
Com alguns garotos das fileiras de base, o Rio Branco chegou forte no Brasileiro da Série C, após tentar, de todas as maneiras, sem sucesso, que a CBF o incluísse na Série B. Passou com folga da 1ª fase, eliminou Estrela-ES (13-10-1996) e Tubarão-SC (27-10-1996) nos primeiros mata-matas e chegou às quartas, quando caiu diante do Botafogo-SP (10-11-1996). Apesar de não conquistar o acesso, o Tigre teve o melhor ataque da competição, com 30 gols, e o artilheiro, Marcelinho, que marcou 15 vezes.
No primeiro semestre, o Rio Branco apostou em jogadores experientes como Betinho, Boiadeiro, Zé Roberto e Dão, e fez uma campanha intermediária no Campeonato Paulista. A preparação foi conturbada. A diretoria chegou a contratar Lula Pereira, mas acabou demitindo-o (29-11-1996) porque o técnico queria alguns jogadores que o clube não havia contratado, além de não estar gostando dos reforços. A diretoria chegou a oferecer Charles Guerreiro e Magrão, mas Lula vetou. Ainda no final de 1995, a diretoria anunciou Cláudio Duarte, que não demorou muito para cair depois do início do Paulistão (4-2-1996).
A pré-temporada de dez dias com muita chuva custou R$ 23 mil e aconteceu em Águas de São Pedro, onde a delegação chegou após toda a avaliação física realizada na Escola Paulista de Medicina em São Paulo (5-1-1996). O time até causou uma boa impressão ao chegar à final do Torneio Início do Paulistão (21-1-1996), perdendo o título para a Portuguesa após uma derrota por 1 a 0, com gol de Tininho, no Parque Antártica.
No início do ano, o vice-presidente de futebol, Pedro Francischangelis, afirmou que, diferentemente do que havia sido anunciado pela diretoria anterior, não existia R$ 1 milhão em caixa, mas cerca de R$ 700 mil que entrariam nos cofres até julho, pelas negociações de Robert, Marco Antônio e Sandoval. Não havia dívida, mas também não existia dinheiro em caixa no início da preparação, segundo o dirigente, que estimava um gasto entre R$ 2,5 milhões e R$ 3 milhões no Paulistão.
O Rio Branco tentou nesse ano utilizar um terceiro uniforme. Fornecedora de material esportivo do clube, a Amddma (do grupo Rhumell) fez o uniforme número 3, com camisas e meias azuis e calções pretos. A novidade foi levada para reunião no Conselho Deliberativo (26-2-1996) e apresentada pelos jogadores Gustavo, Wilton, Jéfferson e Marcão. O objetivo era uma autorização, a título de experiência, para usar o uniforme contra o Santos (7-3-1996), na Vila Belmiro, em jogo com TV, já que o estatuto do clube não permitia nada além de preto e branco. Mas a tradição falou mais alto e, por 31 votos a 22, a ideia foi rejeitada.
A Amddma ficou no clube apenas até o final do Paulista. Para a Série C, após analisar propostas da CCS, Toss, Topper e Penalty, o Rio Branco fechou com a Kanxa (24-8-1995) um contrato de um ano para fornecimento de três mil peças de uniformes para treinos, jogos e viagens.





No mesmo dia do “não” ao terceiro uniforme, as contas da administração de Armindo Borelli foram aprovadas pelo Conselho. O ex-presidente do clube, também com bom relacionamento com o presidente da federação, Eduardo José Farah, foi mais um que deixou o Rio Branco e acabou nomeado a um cargo na entidade que comandava o futebol paulista. Borelli virou diretor-técnico, enquanto seu antecessor, Sardelli, trocou o cargo de vice-presidente de relações públicas pelo de vice-presidente regional.
Em novembro, a federação anunciou o projeto Gramados Perfeitos em todos os campos da 1ª Divisão. Quem ainda não tinha sistema eletrônico de irrigação receberia verba de R$ 20 mil para isso e para o plantio de sementes híbridas. O Décio Vitta foi um dos beneficiados.
O clube teve algumas iniciativas em busca de atrair público. Em maio, decidiu sortear uma cadeira cativa nos jogos contra Santos e Palmeiras. À época, o clube tinha 1.900 cadeiras cativas vendidas e 600 a comercializar. Outra iniciativa foi a distribuição de ingressos para crianças de 5 a 12 anos, uma iniciativa do diretor de marketing, Luís Carlos Zerbetto, que começou em fevereiro.
Zerbetto também defendia um projeto chamado Visão 2000, que pregava a autossustentação de cada departamento do clube e o resgate do antigo associado com ações voltadas a eles. Além disso, previa um jornal bimestral interno e uma loja oficial do clube.
Buscando novos patrocinadores, o Rio Branco praticamente acertou um contrato com a Sport Pro (17-10-1996), assinado apenas em janeiro do ano seguinte. A empresa, especializada em marketing e publicidade na área esportiva, ficaria encarregada de buscar patrocinadores. O clube havia fechado no início do ano (15-1-1996) um novo contrato com a Vicunha, que, pela primeira vez, estamparia sua marca no uniforme de jogo. A Goodyear também renovou, em fevereiro, e o clube chegou perto de um acerto em agosto com a empresa têxtil Fairway, que não vingou.
O comando de futebol teve mudanças ao longo do ano. Depois de montar a equipe para o Paulistão, o diretor Celso Abrahão decidiu sair (15-1-1996) alegando motivos particulares e familiares. Como o time já havia sido montado, Francischangelis seguiu o trabalho com Juraci Catarino e Cristóvão Borges, sem um substituto para Abrahão.
Depois do Paulistão, foi a vez de Francischangelis deixar o cargo de vice-presidente de futebol (5-8-1996). Segundo ele, não era mais possível conciliar a função com a venda de tecidos das empresas têxteis que ele representava.
O grande susto do ano no clube envolveu o lateral Adriano Luís. Sentindo-se mal, com fortes dores de cabeça, foi encaminhado para o Hospital São Francisco (27-3-1996). Após exame, foi constatado um aneurisma cerebral, o que o levou a ser transferido naquela noite para ser operado no Alberto Einstein, em São Paulo. A cirurgia, que ocorreu como esperado, eliminou um pequeno coágulo e restabeleceu o fluxo de sangue, com o jogador recebendo alta dias depois (3-4-1996). No início de agosto, ele voltou às atividades físicas.
No início do ano (18-1-1996), morreu, aos 79 anos, João Tamborlin. Nascido em Descalvado-SP em 22 de setembro de 1916, Tamborlin frequentava o clube desde 1924, junto ao pai. Virou sócio em 1933 e teve a vida inteira ligada ao clube, sendo conselheiro vitalício e ocupando vários cargos, entre eles o de presidente. Ajudou na construção da sede social na Fernando de Camargo e passou a dar nome à sede náutica do clube em novembro de 1995.
