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2003

Começa a bagunça

Pela primeira vez desde o retorno ao profissionalismo, o Rio Branco viveu uma temporada de problemas financeiros a um patamar de quase paralisar as atividades do futebol. O clube iniciou 2003 devendo salários para jogadores e técnicos. Terminou com atrasos que chegavam a quatro meses, dívida na casa de R$ 1,5 milhão e aceitando que um parceiro começasse a montar o time de 2004 mesmo sem contrato assinado.

Os problemas colocaram em rota de colisão, durante todo o ano, o presidente do clube, Oswaldo De Nadai, e o mandatário do futebol, Armindo Borelli, que trocaram acusações pela imprensa. Alegando compromisso com o grupo que formou para ser eleito, De Nadai manteve Borelli no cargo.

Para cortar gastos, o clube nem fez sua tradicional pré-temporada fora da cidade e os problemas vieram à tona com força no último dia de janeiro. Pela terceira vez, o comando do futebol reuniu-se com os jogadores para avisar que, diferente do combinado, não seria possível pagar os valores atrasados – à época, metade da folha de pagamento.

A situação era mais delicada porque funcionários e jogadores começaram a receber ligações de um banco informando que o clube não havia pagado a primeira das três parcelas do empréstimo pessoal feito em nome deles para quitar o 13º de 2001. O banco chegou a debitar o dinheiro de todos, e só estornou após negociações com o vice-presidente administrativo do clube, Sérgio Meneghel. Esses empréstimos deveriam ter sido pagos em três parcelas no início do ano, mas depois foram renegociados para o início do ano seguinte.

Os problemas irritaram Borelli, que, pela primeira vez, criticou publicamente De Nadai. “Nunca chegamos a esse ponto. O Rio Branco é grande demais para isso. Existe muita promessa, mas o presidente está empurrando com a barriga. Política e futebol são duas coisas que não se devem misturar”, disse Borelli, apoiado por um também irritado Mário Antonucci.

Rio Branco jogando em Marília em 2003, ano no qual os problemas do clube começaram a aumentar

De Nadai atribuía o problema à demora da federação em liberar o dinheiro das cotas do Paulistão (R$ 305 mil em quatro parcelas). No dia seguinte, subiu o tom e reclamou que a diretoria de futebol não havia conseguido negociar jogadores e também sobre a forma como Borelli expôs o problema. “A missão do sr. Armindo Borelli, na direção do Departamento de Futebol, é gastar o dinheiro do clube e a nossa é procurar mais receitas, sem sacrificar o associado. Com toda certeza, a nossa missão é muito mais espinhosa”, respondeu o presidente.

No início de fevereiro, falava-se em dívida de R$ 450 mil e mais R$ 130 mil em salários atrasados. A situação se arrastou durante o mês de fevereiro até que o Conselho Deliberativo aprovou (25-2-2003) a proposta da diretoria de acabar com as categorias infantil e juvenil, o que significava dispensar 56 jogadores entre 13 e 17 anos, além de 15 profissionais das comissões técnicas. A economia estimada era de R$ 460 mil por ano.

A proposta foi levada ao Conselho por Borelli, que negou que a ideia era dele, atribuindo-a à diretoria do clube. Além da economia, a proposta baseava-se nas incertezas causadas pelo retorno do investimento devido ao fim do passe dos jogadores. A categoria júnior só foi mantida porque era exigência da federação. O supervisor das categorias, Octávio Bordignon, classificou o ato como um tiro no pé, afinal da base havia saído o sustento do clube por temporadas, com a revelação e a venda de jogadores.

Logo depois, apareceram propostas de empresários para parcerias na base. A prefeitura estudou uma forma de ajudar com as equipes amadoras da cidade. Alternativas surgiram, mas nunca mais a base foi administrada diretamente pelo Rio Branco, nem teve a estrutura que tinha até então.

Tudo no clube era motivo de discórdia entre Borelli e De Nadai. O primeiro chegou a anunciar, após o Paulistão, que a competição tinha dado superavit de R$ 40 mil. O segundo, dias depois, falou em deficit de R$ 240 mil. A liberação do meia Fefo por empréstimo de graça – o jogador havia ido à Justiça devido aos atrasos nos pagamentos – fez Borelli criticar o presidente (14-5-2003), que respondeu, no dia seguinte, dizendo que o desafeto não estava conseguindo tocar o futebol e que estava sendo injusto e desleal com toda a diretoria.

Mesmo assim, De Nadai não cogitava demitir Borelli pelo tal compromisso que dizia ter assumido. Alegando motivos de saúde, Borelli resolveu então (19-5-2003) afastar-se do cargo por 30 dias. Mesmo afastado, voltou ao ataque três dias depois (22-5-2003).

“Desleal é aquele que promete e não cumpre, que mantém funcionários ociosos a altos custos, que usa o clube e a imprensa para anunciar parcerias que nunca chegam. Desleal é aquele que inventa viagens nas horas difíceis, deixando a diretoria em situações complicadas, que não fala a verdade por vaidade pessoal”, disparou, dizendo que não iria pedir demissão para não fazer o que De Nadai queria, e não tinha compromisso algum com o presidente, que, por sua vez, classificou os ataques como “pessoais”.

Jogadores começaram a recorrer à Justiça para conseguir a liberação e passaram o Campeonato Paulista inteiro convivendo com atrasos e promessas não cumpridas, algo até então incomum na história do clube.

O regulamento do Paulistão fez até o Rio Branco chegar perto do céu. Como não alcançou o céu, teve de enfrentar um torneio da morte e quase chegou ao inferno. Sob o comando de Ademir Fonseca, contratado no ano anterior (31-10-2002), o Tigre chegou à última rodada da 1ª fase precisando vencer o Palmeiras para ir às quartas e deixar o Verdão fora (22-2-2003). Cansou de perder chances, amargando o empate em 1 a 1 e a eliminação.

O Rio Branco acabou no rebolo e chegou à última rodada precisando vencer a Inter de Limeira para não ter de enfrentar o vice-campeão da Série A-2 para se manter na 1ª Divisão. O empate em casa só salvou o time devido à derrota do Botafogo para o América por 3 a 2 (23-3-2003).

Uma das atrações da temporada foi o retorno do atacante Macedo, uma das grandes revelações da história do clube e herói do acesso em 1990. Logo em sua estreia, contra a Ponte Preta, o atacante deixou sua marca duas vezes na vitória por 3 a 2 (2-2-2003). Macedo foi o 12º e principal reforço do clube, contrariando a proposta feita, em novembro do ano anterior, pelo diretor jurídico José Antonio Franzin de não fazer contratações, jogando o torneio apenas com atletas da casa.

No segundo semestre, o Rio Branco assinou contratos de parceria de intercâmbio de jogadores com Cruzeiro (12-8-2003) e Athletico-PR (14-8-2003). Jogadores desses clubes chegaram e recebiam seus salários normalmente, pagos pelos seus clubes de origem, enquanto quem estava no clube convivia com até quatro meses de atraso.

Em campo, o time parou na 2ª fase da Copa Estado, competição que tentou aproveitar como vitrine de jogadores dos juniores, e deu vexame na Série C, sendo eliminado na 1ª fase em um grupo com apenas três equipes. Disputou, após sete anos, a Copa São Paulo e parou nas oitavas, diante do Vasco. No fim do ano, foi confirmado na edição do ano seguinte como sede novamente.

O clube teve um patrocínio novo em 2003. No início do ano (15-1-2003), fechou por toda a temporada com a Honda Moto Snob, rede de concessionárias de Americana e região. Os valores não foram divulgados, mas cogitou-se algo entre R$ 10 mil e R$ 15 mil por mês até o final do ano. Na sede da concessionária, o clube apresentou seu uniforme (27-1-2003) com o nome da empresa no peito e uma manga especial com um logo de 90 anos acompanhado dos escudos do clube, do Vasquinho e do AEC.

Em meio a toda essa turbulência, ainda havia a eleição no final do ano. De Nadai nunca cogitou a reeleição e já falava em maio que apoiaria uma possível candidatura de seu vice Sérgio Meneghel, pois esse era o acordo feito quando foi eleito.

Mas a situação do clube deixava Meneghel receoso. Disse (24-10-2003) que só seria candidato se o futebol pagasse o que devia até dezembro. Apesar de mostrar otimismo em conseguir uma parceria, mostrava preocupação com a dívida consolidada do clube, que ele mesmo revelou ser de R$ 1,551 milhão envolvendo tudo (fornecedores, salários, parcelamento de tributos e empréstimos bancários). Via o valor como “administrável”, desde que resolvesse a questão do futebol para o buraco não aumentar – o deficit mensal causado pelo futebol era de cerca de R$ 250 mil por mês.

Para a questão do futebol ficar resolvida, era necessária uma parceria. O clube havia conseguido dinheiro com jogadores, o que ajudava a pagar as contas, mas estava longe ainda de resolver seus problemas presentes e futuros. Segundo Meneghel afirmou ao Conselho (28-4-2003), o clube receberia R$ 1,05 milhão somadas as vendas do zagueiro Tiago e de 50% de cinco jogadores juniores e os empréstimos de Rafa e Igor.

Era consenso no clube que, sem uma parceria, seria difícil manter o futebol, tanto que o presidente do Conselho Deliberativo, Reinaldo Bernardi, chegou a marcar uma reunião extraordinária para o dia 12 de novembro, a pedido de Meneghel e De Nadai, para colocar em pauta a discussão sobre parar com o futebol.

O clube tinha em mãos uma carta de intenções enviada (31-10-2003) pelos alemães da Prime Sports Limited, mas o otimismo maior era com um grupo coreano que já havia visitado várias vezes o clube.

A discussão sobre uma possível paralisação do futebol foi adiada, no dia da reunião extraordinária (12-11-2003), diante da presença surpresa do empresário Francesco Arruda, sócio da alemã Prime Sports. Sem uma proposta oficial em papel, revelou o que iriam propor: não admitiam pagar as dívidas, nem luvas ou qualquer valor mensal, apenas assumiriam todos os gastos do futebol após a assinatura do contrato.

Como retorno, a empresa teria 50% dos valores de venda de jogadores, inclusive daqueles que já estavam no clube. Teriam olheiros profissionais espalhados pelo país, reformariam o estádio e construiriam um Centro de Treinamento. Queriam o futebol na S/A que o clube tinha e o controle da empresa.

Enquanto isso, Meneghel chegou a pedir um levantamento interno para saber os custos para acabar com o futebol, entre rescisões e demissões. Nesse clima, depois de duas eleições com três chapas de conselheiros registradas, apenas uma, a Rio Branco Nova Era, fez inscrição (14-11-2003), com Meneghel garantindo que só seria candidato no Conselho com a situação resolvida.

O clube passou dias só falando dos alemães da Prime e dos coreanos ligados à empresa carioca PSTS Sports, que anunciaram a entrega de uma carta de intenções à diretoria (27-11-2003). A aclamação da chapa Rio Branco Nova Era aconteceu no dia seguinte (28-11-2003). Eram 2,6 mil sócios com direito a voto.

A primeira proposta oficial apareceu de surpresa (4-12-2003), vinda de um grupo de empresários brasileiros, pela WDS Sport’s Marketing Assessoria Esportiva. Queriam cinco anos de contrato; 50% dos jogadores que pertenciam ao clube e 90% dos que chegassem após o acordo; pagariam US$ 300 mil em 15 parcelas; e assumiriam todos os gastos com futebol e estádio. A 45 dias do início do Paulistão de 2004, o clube tinha apenas sete jogadores profissionais.

Apesar da indefinição e contrariando o que havia dito, Meneghel aceitou o desafio e foi aclamado presidente em reunião no Conselho (9-12-2003). No mesmo dia, a WDS, presidida por Wellington dos Santos, recebeu autorização dos conselheiros para apresentar garantias financeiras da proposta até o dia 31 de dezembro. A carta de intenções da Prime foi considerada vaga.

Dois dias depois, os coreanos da PSTS levantaram a hipótese de um trabalho conjunto com a WDS. Mesmo sem contrato assinado, a WDS começou a trabalhar no clube. Apresentou o técnico Júlio Espinosa (15-12-2003) junto com os primeiros reforços, Ricardo e Tadeu. No final do ano, a garantia não foi apresentada e o clube, sem alternativa, falou em uma extensão do prazo, e a empresa seguiu gastando na montagem da equipe, inclusive anunciando um velho conhecido do clube, Celso Abrahão, como gerente de futebol (30-12-2003).

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