Salvo pelo rival
Salários atrasados e risco de rebaixamento já faziam parte da vida do Rio Branco e apareceram com força novamente na temporada de 2005, ano no qual o clube firmou um dos melhores contratos de patrocínio de sua história, dando início a uma longa relação com o São Vicente.
O acerto com a rede de supermercados (12-1-2005), então com lojas apenas em Americana e Santa Bárbara d’Oeste, envolvia dinheiro e alimentação de todas as categorias, valendo até o final do Paulistão, quando voltariam a conversar para uma renovação. “Igual, o Rio Branco nunca teve”, definiu assim o acordo, à época, o vice-presidente de marketing, Carlos Scaliche.
Na apresentação do uniforme com a marca do patrocinador (17-1-2005), o presidente Sérgio Meneghel classificou o acordo como o melhor contrato que o Rio Branco já havia feito desde quando ele estava no clube, em 1992. Após o estadual, o São Vicente renovou (24-5-2005) por mais um ano.
A situação financeira era delicada. O clube havia contratado (17-11-2004) o técnico Luís Carlos Cruz, ex-auxiliar de Lula Pereira, para o estadual e, logo após a disputa da Copa São Paulo, quando o time caiu nas oitavas diante do Paraná (18-1-2005), nove jogadores subiram para o elenco que jogaria o Paulistão. A meta era colocar os garotos no mercado e economizar em reforços.
Após pré-temporada em Jacutinga-MG, o clube começou mal o campeonato. A campanha ruim e uma goleada sofrida diante do Santos por 5 a 1 (23-2-2005), no dia de seu aniversário de 41 anos, fizeram com que Cruz colocasse o cargo à disposição. A diretoria o convenceu a ficar, mas dias depois ele caiu de fato (29-2-2005) e Zé Teodoro voltou ao clube.

Com o Estádio Décio Vitta recebendo públicos pequenos, o Rio Branco chegou à penúltima rodada na zona de rebaixamento. O jogo era contra o Palmeiras, no Décio Vitta (10-4-2005). Com grande atuação de Jales, que marcou os três gols, o Tigre venceu por 3 a 0 e chegou à última rodada precisando vencer o Paulista, em Jundiaí, para escapar sem depender de outro resultado (17-4-2005).
Com um time pouco confiável, perdeu por 1 a 0 e acabou salvo pelo maior rival, o União Barbarense. Em Araras, o time de Santa Bárbara d’Oeste venceu o União São João, por 3 a 1, mas mesmo assim amargou o seu primeiro rebaixamento após estrear na elite, em 1999. O time de Araras também caiu e o Tigre se salvou.
O clube conviveu, durante o campeonato inteiro, com salários atrasados. Os de fevereiro, por exemplo, foram pagos apenas no dia 10 de maio. Dívidas com funcionários e jogadores envolviam o 13º inteiro de 2004 e uma parcela do 13º de 2003. Além disso, o clube devia ao banco parcelas do empréstimo pessoal feito por funcionários para quitação do 13º de 2002 e os salários de janeiro de 2003. Com os atrasos, o clube sofreu várias ações na Justiça, com jogadores, principalmente da base, conseguindo liberação. No meio do ano, eram 43 ações envolvendo o clube, entre trabalhistas e cíveis.
Não à toa, funcionários do Departamento de Futebol entraram em estado de greve no início de junho. Segundo Meneghel, o departamento tinha gastos de R$ 70 mil por mês e o clube ainda pagava cerca de R$ 15 mil em energia do estádio e das sedes náutica e social, enquanto as mensalidades dos sócios significavam receita mensal de R$ 50 mil.
Em julho, o clube precisou oferecer o Estádio Décio Vitta, avaliado em R$ 26,7 milhões, como garantia para que tivesse andamento uma ação de contestação do clube com o INSS. O Rio Branco não concordava com o valor cobrado pelo instituto, R$ 4,2 milhões, em dívidas.
Mesmo com todos os problemas, o Rio Branco contratou o técnico Ruy Scarpino (10-6-2005) e jogou a Série C. Com base de garotos da casa, passou bem da 1ª fase e eliminou o Volta Redonda no primeiro mata-mata (17-9-2005), mas caiu diante do Vila Nova-MG nas oitavas (1-10-2005).
As dificuldades afastaram possíveis candidatos na eleição de fim de ano. Existia uma pequena possibilidade de pessoas ligadas ao ex-presidente Armindo Borelli lançarem uma chapa de oposição, mas Meneghel reuniu-se com vários setores do clube e, diante das dificuldades do clube, decidiu-se pelo registro de chapa única, a Rio Branco, ao Conselho Deliberativo (24-10-2005). Sem disputa, os apenas 12 novos conselheiros da chapa foram aclamados (26-11-2005).
Liderando o grupo, Meneghel refez uma promessa que outros já haviam feito: equacionar definitivamente os problemas financeiros e promover a independência do futebol em relação ao social. “Chegamos a ter 5,5 mil associados. Hoje não temos mil”, disse, escancarando os problemas de usar o dinheiro do associado para pagar as despesas do futebol. Por aclamação, Meneghel foi reeleito pelos conselheiros (14-12-2005) para um biênio que marcaria o primeiro rebaixamento da história do clube.
