A maldição do centenário
Anos de centenário não costumam causar boas lembranças a torcedores de diversos clubes. Com o Rio Branco não foi diferente. Mesmo com uma das maiores folhas de pagamento entre os clubes da Série A-2, o Tigre correu sérios riscos de voltar à Série A-3, aparecendo na zona de rebaixamento até o início da penúltima rodada da 1ª fase.
Uma vitória dramática sobre o Comercial por 1 a 0, no Décio Vitta (23-3-2013), deixou o Tigre em boas condições de fugir da degola na última rodada, quando empatou com o Velo Clube em 1 a 1 e sacramentou sua permanência (31-3-2013).
Para um ano tão importante, o Tigre apostou na experiência do técnico Luiz Carlos Ferreira, que voltou ao clube com plenos poderes, o que se mostraria desastroso mais para a frente. Logo em sua apresentação, anunciou a saída de um ídolo da torcida, o zagueiro e capitão Bernardi, surpreendendo a todos. Sandro Hiroshi, outro ídolo, não demorou muito para seguir o mesmo caminho, percebendo que não teria espaço com Ferreirão.
Com seu estilo excêntrico, cheio de frases de efeito, comprou briga com o União Barbarense e conseguiu tirar Junai do rival, que disputaria a 1ª Divisão. Justificou dizendo que todos queriam fazer parte da família Ferreirão.
Mas também sofreu os seus percalços na preparação, com as saídas dos dois principais atacantes contratados: Leandro, ex-São Paulo e Corinthians, e Josiel, ex-Flamengo e Paraná. Perdeu outros, como o zagueiro Neto, o atacante Fábio Santos e o goleiro André Sangalli. Deu de ombros. Confiava que levaria o Rio Branco de volta à 1ª Divisão.
Para isso, teve todo o suporte fora de campo, inclusive com o Tigre voltando a fazer pré-temporada fora de Americana, desta vez na cidade de Cedral. Mas, quando a bola rolou de fato, o que se viu foi um time sem qualquer padrão tático. Um amontoado de jogadores em campo. Nas cinco primeiras rodadas, a conquista de apenas dois pontos fez Ferreirão perder o emprego.
A solução foi chamar Luizinho, campeão da Série A-3 do ano anterior, de volta. Estreou mais uma vez – como havia acontecido em 2012 – em um sábado de Carnaval (9-2-2013). Novamente com vitória, 1 a 0 sobre o São José, o que deixou a falsa impressão de que o clube iria entrar na briga pelo G-8.
Cheio de problemas internos e com Luizinho reclamando da falta de empenho de alguns jogadores, o Tigre levou 4 a 0 da Ferroviária (27-2-2013) e perdeu por 1 a 0 para a já quase condenada Santacruzense (3-3-2013), que não havia vencido uma partida sequer até então. Isso foi o suficiente para ligar o sinal de alerta e encarar que a briga seria mesmo para não cair.
Jogadores foram dispensados, outros contratados. Sandro Hiroshi e Júlio César, que deixaram o clube após a chegada de Ferreirão, estavam de volta para ajudar o Tigre. Todo remendado em relação ao elenco que havia começado a temporada, o time seguiu cambaleando, até que, na penúltima rodada, um gol de Rodrigo Celeste garantiu a vitória por 1 a 0 sobre o Comercial (23-3-2013), que praticamente acabou com qualquer chance de rebaixamento.
Para um time que havia começado a Série A-2 sonhando com o acesso, permanecer na 2ª Divisão acabou sendo motivo para comemoração no ano do centenário.
Logo depois, o presidente José Antonio Franzin anunciou que o clube não iria participar da Copa Paulista por questões financeiras. A federação chegou a divulgar uma lista de inscritos sem o Rio Branco, mas, no dia 6 de maio, após uma reunião com o prefeito Diego De Nadai, Franzin anunciou que o clube havia pedido para ser incluído na competição.
Dois dias depois, Júlio César, diretor de futebol, foi confirmado como treinador do time no torneio, uma forma de economizar, já que o ex-zagueiro já era funcionário do clube.
Antes do início da Copa Paulista, já preparando a sucessão de Franzin, Teo Feola, vereador licenciado e chefe de gabinete do prefeito Diego De Nadai, foi nomeado vice-presidente de futebol (23-5-2013), cargo que estava extinto no clube e foi “ressuscitado” dias antes em reunião do Conselho Deliberativo, que também deu carta branca para Franzin negociar a sede social do clube.
A novela da venda da sede social terminou no dia seguinte (24-5-2013), com o Rio Branco enfim finalizando a venda na Justiça para a AVT Incorporadora. O clube divulgou que a venda aconteceu por R$ 6 milhões, que seriam usados para pagamentos de dívidas trabalhistas, mais o investimento em outras ações no clube, entre elas shows e produção de uniformes para o centenário – a AVT seria patrocinadora do uniforme do clube até o fim do segundo semestre de 2014. O valor total do acordo não foi revelado, mas giraria em torno de R$ 10 milhões. A sede havia sido avaliada pela Justiça em R$ 11,5 milhões.
Em campo, o Tigre montou um bom time e deu esperanças à torcida de chegar longe. Fez uma promoção durante praticamente toda a competição que atraiu bons públicos ao Décio Vitta – a troca de quatro latinhas ou duas garrafas pet por um ingresso.
Na 1ª fase, o Tigre, que, na campanha inteira, teve sete jogos ao vivo em TV aberta, passou sem grandes dificuldades e festejou bastante a vitória sobre o rival União Barbarense por 1 a 0, no Décio Vitta (10-8-2013), quebrando um tabu de sete anos sem vencer o rival.

Sem nunca ter conseguido passar da 2ª fase da competição, o Tigre começou bem essa etapa ao vencer o XV de Piracicaba (21-9-2013), mas uma derrota para o Linense, na rodada seguinte (25-9-2013), comprometeu toda a campanha – o time de Lins só fez esses três pontos na 2ª fase. O Rio Branco ainda chegou à última rodada precisando só de um empate contra o XV, em Piracicaba, para se classificar (12-10-2013). Saiu perdendo, empatou e sofreu um gol no final, dando adeus à competição. Ficou pelo menos a sensação de ter conseguido montar uma base para 2014, apesar de todos terem contrato apenas até o final do ano.
Três dias após a eliminação (15-10-2013), um infarto matou Celso Abrahão, que por anos trabalhou com o futebol do Rio Branco, como empresário e diretor do clube. A semana ainda reservou outro fato triste na história do Rio Branco, com a já vendida sede social do clube, palco de tantas histórias, indo ao chão. Um trator derrubou parede por parede de um prédio que por décadas foi o coração do clube.
No final do ano, ocorreu o lançamento do selo e do carimbo postal do Rio Branco em comemoração ao centenário (23-11-2013). Quatro dias antes, uma chuva de granizo com ventos de 70km/h havia derrubado parte dos muros ao redor do estádio, o que ajudou a, dias depois (9-12-2013), fazer com que a federação interditasse o Décio Vitta. O clube precisaria correr contra o tempo para entregar todos os laudos necessários e liberar o estádio para a Série A-2 de 2014.
Marcelo de Barros Feola, o Teo Feola, foi aclamado (12-12-2013) presidente do clube para o biênio 2014-2015. O ainda presidente Franzin voltaria a presidir o Conselho Deliberativo. Novos conselheiros, aclamados na chapa Força Tigre (29-11-2013), tomaram posse no dia da eleição, que tradicionalmente acontecia na sede social, mas, com a demolição, foi realizada no Estádio Décio Vitta.
O último ato solene do ano do centenário ocorreu na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (16-12-2013), com uma homenagem ao clube por indicação do deputado estadual petista Antonio Mentor. Desafetos políticos estiveram todos juntos, em um evento que reuniu, além do prefeito de Americana, Diego De Nadai, os deputados estaduais Cauê Macris, Chico Sardelli e Antonio Mentor e o deputado federal Vanderlei Macris. O presidente eleito do Tigre, Teo Feola, e o presidente em exercício, Franzin, também marcaram presença.

