O Rio Branco beirou a várzea em 2016. Não foram poucos os acontecimentos típicos do amadorismo que ajudaram a levar o clube de volta para a Série A-3, no primeiro ano de mandato do presidente Valdir Ribeiro. Com a tardia definição do novo presidente, na eleição de dezembro de 2015, todo o planejamento para a Série A-2 ficou comprometido e o clube foi o último a começar a montar o elenco.
O técnico escolhido foi um estreante na profissão, o ex-zagueiro Marcelo Bordon, que falou grosso e prometeu um time comprometido em sua apresentação (16-12-2015). Junto com ele, como auxiliar, estava um ex-jogador do Tigre, o volante Emerson, que atuou no clube em 2011.
No final do ano (28-12-2015), o Tigre ainda foi buscar um nome conhecido no interior, Claudio Henrique Albuquerque, o Kiko, ex-dirigente da Ponte Preta, para ser o gerente de futebol. Logo na chegada, ele já deixou bem claro qual era a situação: “O Rio Branco está atrasado, não tem tempo nem pra chorar”.
Kiko durou apenas quatro rodadas e acabou dispensado sob a alegação de contenção de despesas (13-2-2016). Quem durou uma rodada a mais foi o vice-presidente de futebol, Vanderlei Favarelli, que, após 45 dias no cargo, entregou uma carta de demissão, sob a justificativa de falta de patrocínios para manter o futebol do clube (14-2-2016).
Quem assumiu o comando do futebol foi Paulo Araújo, que já trabalhava na base do Tigre. E logo de cara saiu disparando, que o clube não tinha dinheiro para nada, que Bordon trabalhava de graça e que não descartava até deixar o campeonato antes do fim – Araújo também não aguentaria muito tempo no cargo, e deixou a função alegando que lhe faltava tempo para seus compromissos (20-6-2016). O ambiente era ruim fora de campo e, dentro dele, o time só apanhava.
Nas seis primeiras rodadas, o Rio Branco conseguiu um mísero ponto e colecionou episódios pitorescos. Contra o Juventus (14-2-2016), o atacante Marcelo Soares simplesmente se recusou a ser substituído e acabou afastado. Na rodada seguinte, contra o Monte Azul (17-2-2016), o time se perdeu no caminho e chegou em cima da hora do jogo. Além disso, viajou sem contar com médico na delegação, infringindo o regulamento geral.
O time ainda chegou a esboçar timidamente alguma reação, mas só esboçou. Além dos péssimos resultados, a equipe de Marcelo Bordon abusava das faltas e cartões (terminou o campeonato líder em cartões amarelos, cartões vermelhos e faltas). O extracampo estava para lá de conturbado, com o presidente Valdir Ribeiro chegando até a descer das tribunas para discutir com torcedores, após o empate em casa com o Batatais (16-3-2016).
Na rodada seguinte, o ápice da crise. O Tigre enfrentava o lanterna Atlético Sorocaba (19-3-2016) e Valdir passou parte do jogo cobrando os atletas da tribuna, aos berros. No final da partida, o zagueiro Márcio Luiz e o volante Roberto subiram a arquibancada para tirar satisfação. Houve troca de empurrões entre Valdir e Roberto. Depois do jogo, Bordon soltou os cachorros reclamando até de falta de comida na concentração.
Para encerrar a várzea, o Rio Branco perdeu feio do Paulista na rodada seguinte por 3 a 0 (23-3-2016). Chegou atrasado para a partida porque os jogadores seguiram de carro, já que, quando a delegação iria embarcar para o jogo, um ônibus escolar apareceu para o transporte. Foi a gota d’água para Bordon, que, após várias ameaças, pediu demissão e foi embora.
Andrezão, ex-zagueiro do Tigre, assumiu ainda com uma remota chance de evitar o rebaixamento, após o time passar toda a Série A-2 na zona da degola. O Tigre até venceu a primeira das últimas três partidas: 2 a 0 sobre a Portuguesa (27-3-2016), encerrando um jejum de 22 jogos fora de casa sem vitória. Mas acabou rebaixado na penúltima rodada, com uma derrota por 1 a 0 para o Bragantino no Décio Vitta (30-3-2016).

Cinco dias depois do fim da 1ª fase, uma das entradas do Décio Vitta foi pichada (8-4-2016) com protesto contra o ex-presidente Teo Feola. Ele foi chamado, na pichação, de o pior presidente da história do clube. No dia seguinte, foi pintada a palavra “melhor” no lugar de “pior”. Foram quatro pichações no portão e no muro.
A novela para conseguir jogar em casa desde o início do ano mais uma vez se repetiu, desta vez com final feliz. O clube conseguiu em janeiro a renovação do laudo de engenharia, que havia vencido e provocado a interdição do estádio. Só que o AVCB (Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros) vencia em 26 de janeiro, dias antes da estreia.
Em vistoria do Corpo de Bombeiros (27-1-2016) para tentar renovar o documento, foram apontadas três necessidades: a concretagem de uma pequena área de saída de torcedor, a retirada de panos que serviam como forro na área de arquibancadas cobertas e o funcionamento do sistema sonoro de emergência.
O clube correu, no dia seguinte, para deixar tudo em ordem. Foi quando descobriu que existia um outro AVCB do estádio. O que havia vencido em 26 de janeiro era um AVCB com limite reduzido de público. Mas, depois que o Rio Branco reconstruiu o muro que o havia impedido de estrear em casa em 2015, um novo AVCB havia sido concedido, este com vencimento em 12 de fevereiro. Só que ninguém no clube havia encontrado o documento.
O secretário de Esportes, Edilson Bissoli, conseguiu uma cópia e a enviou à federação, confirmando a estreia em casa. O documento depois foi renovado e o Tigre não precisou mandar jogos fora de Americana, o que havia se tornado corriqueiro em anos anteriores. Mas, tanto em casa quanto fora, raríssimos foram os bons momentos do clube na Série A-2.
O fato de jogar o campeonato inteiro em casa não refletiu em um bom público nas arquibancadas. Levantamento feito pela federação em setembro com os jogos das Séries A-1, A-2 e A-3 e da 4ª Divisão, que estava em sua reta final, mostrou que o Tigre teve apenas a 48ª média de público entre 92 clubes, com 886 torcedores por jogo como mandante.
Pouco depois do fim da Série A-2, surgiu a possibilidade de empresários da cidade, através do ex-jogador Sandro Hiroshi, que comandava o sub-17 do Tigre, tocarem o time na Copa Paulista.
Sem vaga garantida devido à péssima campanha na 2ª Divisão, o clube chegou a ser convidado, mas o presidente anunciou (25-4-2016) que, após reunião com seus diretores e diante da proposta que era apenas para o sub-20, o clube iria recusar o convite, mantendo apenas a base no segundo semestre, assim como havia feito quando caiu pela primeira vez para a Série A-3, em 2011.
Uma entrevista coletiva (4-5-2016) com as participações, entre outros, de Valdir e do presidente do Conselho Deliberativo, Armindo Borelli, expôs a precariedade do clube. Após quatro meses de mandato, eles traçaram um cenário apocalíptico, escancarando um completo abandono e falta de acesso a documentos originais e balanços.
Revelaram que não conseguiam nem ao menos saber qual era a dívida, que aumentava ainda mais com a notícia dada por eles de uma pendência de R$ 1,3 milhão junto ao Departamento de Água e Esgoto (DAE), sendo que R$ 680 mil ainda eram da antiga sede social, já demolida.
Na véspera, o Conselho deu carta branca para que Valdir cobrasse “todos os atos praticados pelas ex-diretorias” que tivessem prejudicado o clube. Nessa mesma reunião do Conselho, o presidente anterior, Teo Feola, alegando problemas pessoais, deixou o cargo de conselheiro, continuando apenas a ser sócio (3-5-2016).
A reunião no Conselho aconteceu no dia em que estourou a notícia de que a sede náutica iria a leilão em uma ação de execução fiscal por parte da União. A juíza Ana Paula Alvarenga Martins, da 1ª Vara do Trabalho de Americana, em entrevista ao jornal O Liberal (6-5-2016), esclareceu que as dívidas eram de R$ 539,9 mil, sendo R$ 397 mil de execuções fiscais e R$ 197 mil em créditos trabalhistas. Além disso, havia 29 processos que ainda não estavam em fase de execução.
A sede foi avaliada pela Justiça em R$ 15 milhões, com lance mínimo estipulado em R$ 7,5 milhões (de praxe, segundo a juíza, os valores para leilões giravam em torno de 40% a 60% da avaliação).
José Antonio Franzin, conselheiro que foi ex-presidente do Conselho e da diretoria, deixou de defender o clube em processos. Com contrato desde 2002, mas atuando no clube antes disso, ele renunciou a todos os processos, segundo reportagem do jornal TodoDia (13-5-2016). Franzin afirmou que haviam sido mais de 900 processos.
Segundo Valdir, houve um pedido da diretoria para a mudança do Departamento Jurídico, que passou a ser de responsabilidade de Cláudio Bonaldo. Não demorou e Valdir teve a segunda baixa em seu alto escalão – depois de Favarelli – em pouco mais de cinco meses, com a saída do vice-presidente financeiro Aldo Morelli (20-5-2016), que alegou afazeres pessoais e profissionais para deixar o cargo.
Sem futebol profissional, o Décio Vitta foi alvo, de novo, de ladrões durante uma madrugada de domingo (22-5-2016). Segundo o roupeiro Peixe Gato, foram levados do vestiário principal do estádio televisão, uniformes, camisas, calções, chuteiras e uma mala que o acompanhava havia muito tempo, com bomba de encher bola e máquina de fazer rosca em chuteiras.
O Rio Branco finalizou em 2016 sua adesão ao Profut (22-7-2016), projeto de modernização do futebol com parcelamento de dívida dos clubes com a União em até 240 vezes e redução de multas e juros. O clube começaria a pagar parcelas de R$ 9 mil mensais, o valor mínimo. Com a adesão, o Rio Branco conseguiu na Justiça a suspensão do leilão da sede náutica (28-7-2016).
Sem futebol, o Rio Branco anunciou uma parceria com o Cartão de Todos Torcedores para a temporada seguinte (21-9-2016). Da mensalidade de R$ 34,90, o clube receberia R$ 9,90. Quem tivesse o cartão teria desconto de 60% na compra dos ingressos dos jogos com mando do Rio Branco e descontos em supermercados e serviços nas áreas de saúde, educação e lazer.
O Cartão de Todos Torcedores era uma união entre o cartão de desconto Cartão de Todos e o Movimento por um Futebol Melhor. O Rio Branco era o segundo clube a firmar a parceria – o primeiro havia sido o Ipatinga -, e o objetivo era conseguir 5 mil adesões.
Em grave crise financeira, a prefeitura anunciou oficialmente (11-10-2016) que estava devolvendo o Estádio Décio Vitta ao Rio Branco. Alegando gastos na casa dos R$ 30 mil mensais com a manutenção do estádio e em meio a um decreto de calamidade financeira, a prefeitura notificou o Rio Branco e teria, pelo contrato de comodato, de administrar o estádio por mais 180 dias. A notificação oficial chegou um mês depois (11-11-2016).
O trabalho de Sandro Hiroshi com a base do Tigre acabou rendendo, depois de muito tempo, uma convocação. Artilheiro do time no Paulista sub-17 com 17 gols em 24 jogos, o atacante Júlio Vitor, 15, foi convocado (15-10-2016) para um período de treinamento na seleção brasileira sub-16, comandada pelo técnico Guilherme Dalla Déa.
O sub-17 do Tigre chegou à 3ª fase do estadual e Júlio Vitor voltou a ser convocado em outras ocasiões – fez um gol na derrota do Brasil para a Inglaterra por 4 a 3, em amistoso (23-11-2016).
No final do ano, Julio Vitor foi negociado com a Ponte Preta (28-12-2016). A Macaca comprou 70% dos direitos econômicos do atleta. O Tigre ficou com 30% e ainda teria 0,75% dos valores de futuras vendas ao exterior, como clube formador, pelos três anos em que o jogador havia ficado na base do clube.
O pagamento da Ponte foi através de auxílios durante a disputa da Série A-3, arcando com custos de viagens e arbitragens. Júlio Vitor havia chegado ao Rio Branco aos 10 anos de idade e jogou por três temporadas com contrato na base do clube, dois pelo sub-13 e um pelo sub-17. Gerente de futebol no ano anterior, sob o comando da Zaka Sports, Airton de Moraes morreu (29-8-2016) após problemas cardíacos que teve durante processo de recuperação de um tumor na garganta.
