Um ano de festa… e tristeza
Um ano de muita alegria, com o título da Série A-4, e de muita tristeza, com a morte do roupeiro Peixe Gato, um dos personagens mais marcantes da história do clube. Assim foi o 2024 do Rio Branco, que, fora de campo, conseguiu a aprovação de seu plano de recuperação judicial, com pagamentos parcelados, deságio e carência, que “custou” também duas áreas do estádio Décio Vitta.
A 4ª Divisão paulista mudou em 2024. Já não era mais a última, já que a 5ª estava de volta. Passou a ser a Série A-4, abrindo espaço assim para que seus participantes pudessem jogar a Copa Paulista no segundo semestre, já que apenas times da “primeira divisão”, como a federação chamava as divisões “Série A” (1, 2, 3 e 4), poderiam disputar o torneio, por causa do calendário.
Inicialmente, não era isso o previsto no regulamento da Segunda Divisão (equivalente à 4ª) de 2023, disputada pelo Tigre. Segundo o artigo 18, o quarto e o quinto níveis estaduais de 2024 seriam divisões do Campeonato Paulista Sub-23 Segunda Divisão, ou seja, nenhuma das duas seria uma divisão “Série A”, o que significava que teriam outro calendário, e não a disputa restrita aos primeiros meses do ano. Mas isso foi ignorado e a federação criou, pela primeira vez, a nomenclatura de Série A-4.
O Rio Branco havia escapado do facão no ano anterior, permanecendo assim na 4ª Divisão, e ficou conhecendo o regulamento em reunião na Federação Paulista de Futebol (19-10-2023). Seriam 16 times jogando em turno único para definir os oito classificados para o mata-mata, com a possibilidade de inscrição de cinco jogadores acima de 23 anos, uma novidade para a divisão em relação às edições que o Rio Branco havia disputado. Apenas os finalistas subiriam para a Série A-3.

Os reforços começaram a ser anunciados já em novembro, mas nem todos permaneceram, como foi o caso do volante Jesus, ex-Jabaquara, um dos primeiros confirmados pela diretoria (7-11-2023), e do atacante Gabriel Argentino, que já havia defendido o clube.
Entre as caras novas mais experientes, nas vagas acima de 23 anos, a diretoria apostou em “pilares” para diferentes setores, como o zagueiro Ricardo, ex-jogador do clube, já em fim de carreira, no atacante David Batista, com passagens por diversos clubes e já com 34 anos, e no goleiro Eder, de 27.
A comissão técnica era a mesma e, sob o comando de Valmir Israel, iniciou os trabalhos no fim daquele mês (21-11-2023), uma semana antes da apresentação do elenco. O comando do futebol também não teve mudanças, com o diretor Thiago Gentil e o gerente Brenno Presotto seguindo no clube.
Com novos patrocinadores, o clube apresentou suas camisas para a temporada (24-1-2024), novamente uma branca e outra preta, com a Mondial Eletrodomésticos e os Supermercados Paraná, anunciado pelo clube uma semana antes, ocupando as posições de maior destaque, na frente.
O anúncio que acabou desagradando a torcida no início do ano foi o dos preços dos ingressos, de R$ 40 a cativa e R$ 30 a arquibancada, sem a tradicional promoção de meia-entrada para quem fosse ao estádio com a camisa do clube.
A diretoria até tentou vender um carnê para os oito jogos, mas com desconto pequeno, sem sucesso. Durante o campeonato, os preços acabaram sendo reduzidos e promoções para atrair torcedores foram realizadas. O clube terminou o campeonato com a segunda maior média de público como mandante, 1.839 torcedores, atrás apenas da Francana, com 2.083.
O Rio Branco começou o campeonato vencendo fora de casa o Penapolense, mas logo o rendimento caiu. Foram dez rodadas de pouco futebol, reclamações da torcida – até com o presidente, Claudio Bonaldo, batendo boca com torcedores no estádio (7-2-2024) –, e posições intermediárias na classificação, até que Valmir Israel caiu depois de uma derrota para o União Barbarense, em uma tarde de quarta-feira com uma das maiores brigas generalizadas de jogadores da história do dérbi (6-3-2024).
O clube então recorreu a Raphael Pereira, que já havia dirigido o Rio Branco em 2019 e estava trabalhando na base do clube. Ele atendeu a um pedido da diretoria e assumiu a equipe, a princípio interinamente, para enfrentar o Taquaritinga fora de casa (9-3-2024), cheio de desfalques pelas expulsões no dérbi e precisando recorrer a um garoto de 16 anos, Amilton, para ter um goleiro reserva.
Mesmo assim, o Rio Branco venceu e, dois dias depois, a diretoria efetivou Raphael Pereira, praticamente ao mesmo tempo em que definiu a contratação de Leandro Mehlich para um cargo que não existia, o de coordenador técnico, já que ele havia dirigido o Sãocarlense naquela Série A-4 e não poderia mais treinar uma equipe na divisão, de acordo com o regulamento.
Com a parceria entre Mehlich e Raphael, o Rio Branco não perdeu mais. Chegou à última rodada da 1ª fase ainda lutando pela classificação, mas teria avançado mesmo se tivesse perdido para o Independente (venceu por 2 a 0, em 30-3-2024). Avançando na 6ª posição, o Rio Branco teria de decidir o primeiro mata-mata fora de casa, contra o mesmo Taquaritinga, o adversário do início da recuperação da equipe na 1ª fase.
O time não vinha jogando bem, e a diretoria resolveu contratar. Chegaram os atacantes Raphael Lopes, Luan Carioca e Vagninho, além do meia David Lazari. A equipe cresceu, eliminou o Taquaritinga e foi disputar a semifinal, um confronto já valendo acesso, contra o XV de Jaú. A vantagem de decidir em casa e jogar por dois resultados iguais era novamente do adversário, e o Rio Branco só conseguiu arrancar um empate no jogo de ida, em Americana, com um pênalti cobrado por Gustavo Brandão aos 50 minutos do 2º tempo (20-4-2024).
Em uma quente manhã de domingo (28-4-2024), o Rio Branco foi a Jaú, com o apoio de seis ônibus de torcedores, venceu por 3 a 0 um adversário que jogava pelo empate e estava invicto em casa, garantindo o acesso. Com muita festa, o elenco foi recebido em Americana no final da tarde e houve desfile pela cidade em carros abertos, uma festa que só terminou às 20h, em frente ao Décio Vitta.


Meses depois, às vésperas do Conselho Arbitral da Série A-3 de 2025, o Rio Branco “descobriu” que teria subido mesmo se tivesse sido derrotado em Jaú. O Red Bull Bragantino II, que jogaria a Série A-3 de 2025, decidiu pedir licença por dois anos das competições (6-11-2024). Com isso, o terceiro colocado da Série A-4, o XV de Jaú (que seria o Rio Branco caso o XV tivesse vencido o jogo de volta das semifinais), acabou ganhando de presente o acesso que não conseguiu em campo.
A cereja no bolo para o Rio Branco em 2024 foi o título da Série A-4, derrotando a Francana nos dois jogos finais, o primeiro deles em um Décio Vitta com mais de 7 mil torcedores (4-5-2024), o maior público do clube no estádio em 18 anos.
Após a vitória por 2 a 1 no segundo jogo, em Franca, nova festa em Americana para receber os campeões com a taça, em um palco montado no portal de entrada da cidade, com a presença do prefeito Chico Sardelli, ex-presidente do clube, e desfile em carros abertos pela cidade.



No dia seguinte (5-5-2024), na festa de encerramento do campeonato da federação paulista, em Campinas, o Rio Branco teve Raphael Pereira eleito o melhor técnico e três jogadores na seleção do torneio: o zagueiro Gustavo Brandão, o goleiro Eder e o volante Grígor. Brandão ainda levou o troféu de melhor jogador da Série A-4 e outro por algo inusitado para um zagueiro: foi o artilheiro da competição, com nove gols.
Após o acesso, homenagens. O prefeito Chico Sardelli entregou ao clube (4-6-2024), em seu gabinete, uma placa em nome dele e do vice-prefeito, Odir Demarchi, em homenagem à conquista. No dia seguinte (5-6-2024), a Câmara Municipal realizou uma sessão solene para homenagear o clube, a Malucos do Tigre e o assessor de imprensa, Gustavo Tomazeli, entregando honrarias a cada um.

Tomazeli foi uma das mudanças na área de comunicação do clube, que apostou, em 2024, em uma nova formatação da área. Com as saídas de Alex Ferreira e Thiago Barreto, Tomazeli assumiu o setor e passou a se dedicar em tempo integral ao clube. O clube depois trouxe de volta Guilherme Santos, que já havia trabalhado no marketing do clube, e coube a Christian Guedes a responsabilidade das artes em redes sociais, que passaram a ser frequentes.
Enquanto Tomazeli criou a Rio Branco TV no YouTube, com entrevistas e transmissões de todos os jogos (só áudio, porque as imagens eram exclusivas do canal da federação no YouTube), e montou uma sala de imprensa para entrevistas no Décio Vitta, o que nunca existiu no clube, Santos foi o responsável por diversas ações de marketing antes e durante os jogos, inclusive sendo o responsável por uma nova fantasia para o mascote do clube.
Saiu o velho tigre laranja, com perfil mais infantil, para dar lugar a um musculoso tigre amarelo, batizado de Novo Tigrão (depois chamado só de Tigrão), que estreou na Série A-4 e foi figura obrigatória nos jogos e nas ações de marketing pela cidade. Entre outras ações, o Rio Branco também teve a estreia de seu podcast, o PodTigre (27-8-2024), que começou indo ao ar a cada duas semanas.
As homenagens que o clube recebeu pelo título da Série A-4 ficaram marcadas também por lembranças ao roupeiro Peixe Gato. Apenas 16 dias depois da conquista do título, Aparecido Ferrari morreu em Americana (28-5-2024) em decorrência de choque cardiogênico, tromboembolismo pulmonar e insuficiência renal aguda. Deixou esposa e filho.




Nascido em 14 de novembro de 1964, em Flórida Paulista, Peixe Gato começou a trabalhar como gandula no Décio Vitta na segunda metade dos anos 70, quando o futebol do Rio Branco ainda estava parado. Acabou virando roupeiro no lugar de Bidinha, nos anos 80, e nunca mais deixou a função.
Peixe tinha uma cirurgia de hérnia inguinal prevista para antes das finais contra a Francana, mas pediu para adiá-la para depois da decisão porque não queria perder os jogos. Ele fez depois a cirurgia e teve complicações, voltando a ser internado no Hospital Municipal Dr. Waldemar Tebaldi, até que não resistiu.
O roupeiro foi velado no dia seguinte no Décio Vitta, na área atrás das cabines de imprensa, na cativa. Estava com a camisa do Rio Branco e a medalha de campeão da Série A-4. Torcedores do Rio Branco e o prefeito Chico Sardelli foram ao velório, e o enterro aconteceu no Cemitério Parque Gramado.
Dias depois (26-6-2024), o vereador Juninho Dias apresentou projeto para dar o nome de Praça Pública Aparecido Ferrari ao sistema de lazer número 11, entre as Ruas Celso Marques Miante e Pastor Sidney Ribeiro Mendes, no Jardim Quinta dos Romeiros, o que foi aprovado na Câmara (13-8-2024).

Outras homenagens ao eterno roupeiro do Rio Branco aconteceram quando o time voltou a campo, disputando pela primeira vez a Copa Paulista depois de sete anos (confirmou participação no torneio em 19-4-2024). O time jogou a competição com a inscrição nas mangas da camisa “Eterno Peixe gato”, e o vestiário do Rio Branco no Décio Vitta, após sugestão em artigo do historiador do clube, Claudio Gioria, ganhou um nome e uma placa na porta: “Vestiário Peixe gato” (16-6-2024).
Sem vários jogadores que se destacaram no título da Série A-4, o Rio Branco voltou aos treinos (21-5-2024), visando a Copa Paulista, atrativa pelo fato de dar aos finalistas vaga no Brasileiro da Série D ou na Copa do Brasil (o campeão escolhia uma e a outra vaga ficava com o vice).
Nove dias depois (30-5-2024), o clube anunciou a saída de Raphael Pereira, que ainda não havia retornado ao clube devido ao curso que fazia na CBF para tirar a licença A de treinador. Ele optou por não seguir no clube como auxiliar de Mehlich, que enfim assumiria o cargo de treinador. Logo depois, Raphael acertou com o União São João.
Mesmo sem jogar bem, o Rio Branco passou a maior parte da 1ª fase da Copa Paulista na zona de classificação em seu grupo, mas, com um tropeço atrás do outro, acabou não conseguindo a classificação para as oitavas, o que teria conseguido com apenas uma vitória em um de seus três últimos jogos, dois deles em casa, contra Capivariano e São Bento, e um fora, contra o Red Bull Bragantino, a pior equipe da chave – empatou os dois jogos em casa e perdeu em Bragança.
Fora de campo, a recuperação judicial do Rio Branco foi homologada pelo Tribunal de Justiça de São Paulo (26-4-2024), após credores aprovarem o plano apresentado pelo clube (11-3-2024), que incluiu nas propostas a cessão de terrenos da área do estádio.
Quem tentou barrar o processo foi a Prefeitura de Americana (5-1-2024), entrando com um pedido de rejeição da recuperação judicial. A alegação da prefeitura era que, sem a comprovação de que os débitos tributários do clube estivessem quitados, o pedido deveria ser rejeitado. Os valores da dívida atualizados naquela data, segundo a prefeitura, eram de R$ 2.326.156,68.
Desde 2011 o Rio Branco não pagava IPTU. O pedido foi negado, com a alegação que dívidas tributárias municipais, estaduais e federais não tinham influência em um processo de recuperação judicial. Ao Liberal, o advogado Carlos Manzoti, do escritório JRCLaw, contratado pelo Rio Branco, afirmou que o clube estava à disposição para negociar a dívida com o município, como já havia feito com Receita Federal e União.
O plano aprovado foi dividido por classes. Na Classe I, de débitos trabalhistas, totalizando R$ 410 mil, os oito credores votaram a favor. Os pagamentos nessa classe eram limitados a 150 salários mínimos no primeiro ano e, quem excedesse esse valor, seria pago a longo prazo dentro da Classe III. Não houve Classe II, aqueles classificados como garantia real.

Na Classe III, de quirográfico, havia só um credor, o ex-vice-prefeito de Americana José Ricardo Duarte Fortunato, a quem o clube devia R$ 1,5 milhão. Ele poderia escolher entre duas opções. A primeira era o pagamento, com carência de 24 meses para começar, e deságio de 85%, sendo que os 15% do valor seriam quitados em 180 parcelas.
Fortunato optou pela segunda opção, que era o pagamento através da cessão de duas áreas do estádio, de 2.088,07 e de 3.747,73 metros quadrados. Essas duas áreas também foram a opção escolhida pela SH Sports, empresa do ex-jogador Sandro Hiroshi, que estava na Classe IV e a quem o clube devia R$ 1,6 milhão.
Havia outros três credores dentro da Classe IV, que envolvia microempresa e empresa de pequeno porte, totalizando mais R$ 300 mil em dívidas. Esses optaram pela primeira opção de pagamento, com a carência de 24 meses, deságio de 85% e pagamento em 180 parcelas.
Três dias depois da aprovação do plano, o segundo maior credor, Fortunato, comunicou à Justiça que havia vendido seu crédito por R$ 1.050.000, dois dias antes da assembleia (9-3-2024), para a Alvorada Prado Empreendimentos Imobiliários, pedindo a retificação da ata para que não constasse o seu nome, e sim o da empresa, por não querer “se vincular ao resultado da referida assembleia”.
A R4C – Administração Judicial, nomeada a administradora judicial da recuperação judicial, alegou não ter recebido qualquer comunicação sobre a cessão do crédito e que Fortunato, devidamente representado na assembleia, em momento algum noticiou o fato. Posicionou-se então contrária à mudança do nome. A partir dali, a Alvorada Prado assumiu o processo no lugar de Fortunato como credora do plano de recuperação judicial.
A Alvorada Prado foi a mesma empresa que comprou uma área no estádio em 2019, um negócio homologado pela Justiça Trabalhista. Na ocasião, o Rio Branco vendeu uma área de 3 mil metros quadrados, na esquina da Rua Vitória Furlan com a Avenida Carmine Feola, ao lado da entrada dos torcedores do Rio Branco.
A empresa assumiu à época o pagamento de 34 parcelas de R$ 50 mil, totalizando R$ 1,7 milhão, com depósitos feitos diretamente na 1ª Vara do Trabalho de Americana para o pagamento de dívidas. Entre a Série A-4 e a Copa Paulista de 2024, essa área foi cercada, “tirando-a” de dentro do estádio, e uma construção no local teve início.

O Décio Vitta, com a redução das áreas de propriedade do clube em seu entorno, foi incluído, no final de junho, pela Federação Paulista de Futebol, na lista de 50 estádios que iriam se beneficiar do programa Gramado Paulista, da CBF, para melhoria e padronização dos estádios paulistas, oferecendo consultoria especializada em preparação e manutenção.
O estádio do Rio Branco voltou a receber (9-11-2024) a final do Gigantão, a primeira divisão do amador de Americana, desta vez com a vitória do São Roque sobre o Cidade Jardim por 3 a 1.
Um jogador que chegou a fazer parte do elenco do Rio Branco na Série A-4 foi assassinado no bairro São José, em Marituba, na Região Metropolitana de Belém (7-10-2024). O atacante Ricardo Emanuel Alcântara Paiva, o Ricardinho, nem chegou a estrear no clube porque se machucou logo depois da primeira rodada, a única em que foi relacionado, ficando no banco. Ele morreu em um tiroteio, junto com outros dois homens. Tinha 22 anos e ainda se recuperava da cirurgia que precisou fazer após a lesão que sofreu no Rio Branco.
Três dias depois (10-10-2024), morreu o ex-conselheiro do clube Fernando José Goffi Macedo. Tinha 90 anos e estava debilitado devido a um AVC que havia sofrido um ano antes.
Outro ex-conselheiro do Rio Branco que morreu foi Santo Dean (17-10-2024). Ex-presidente – e jogador – do Flamengo de Americana e um dos fundadores do Vasquinho, Santo Dean tinha 88 anos. Nascido em Cosmópolis, mudou-se para Americana em 1945. Aposentado, estava em sua casa, na Vila Santa Catarina, em Americana, quando passou mal. Deitou-se no quarto e foi encontrado sem vida, com suspeita de infarto.
