Força contra os grandes
Após 12 dias de pré-temporada em Jacutinga-MG, o Rio Branco estreou no Campeonato Paulista de 1995 contra o Novorizontino (29-1-1995), primeiro jogo de Marcelinho com a camisa do clube. No primeiro campeonato que o Tigre disputou com numeração fixa de jogadores, a 10 ficou justamente com aquele que iria se tornar o maior artilheiro da história do clube na fase pós-1979, com 34 gols, marca que depois seria igualada por Lincon.
Marcelinho era um garoto de 19 anos que havia sido contratado no início do ano (6-1-1995) junto ao Corinthians-AL e por quem o clube desembolsou R$ 120 mil, um dinheiro que se mostraria um bom investimento pelo futebol apresentado e porque, dois anos depois, ele teve 50% de seu passe vendido ao São Paulo por R$ 500 mil.
Após 30 dias de férias, nove jogadores se apresentaram para iniciar a preparação (2-1-1995), sob o comando de João Carlos, técnico contratado no ano anterior (23-11-1994). O clube havia também acertado, no ano anterior (17-11-1994), com um novo fornecedor de material esportivo, a Rhumell, que forneceria, por mês, cerca de 200 peças de uniforme de jogo e viagem. Fornecedora do Palmeiras, a Rhumell significava uma economia na casa de R$ 25 mil por mês ao Rio Branco e estamparia a marca Amddma no uniforme do clube.
Para o Campeonato Paulista, a diretoria acabou com o desconto de 50% para mulheres no preço do ingresso e todos passaram a pagar R$ 6 e R$ 3 (meia-entrada para maiores de 65 anos e crianças até 12). O preço mínimo estipulado pela federação era de R$ 12. Além disso, após problemas no início do campeonato, proibiu (2-4-1995) que donos de cativas levassem acompanhantes.
Além da preocupação com o desempenho, o regulamento tirava o sono da diretoria, já que previa rebaixamento para o clube que não mantivesse uma média de público de seis mil pessoas por três anos, algo que depois seria burlado pelos clubes com o anúncio de públicos fictícios.
O Tigre fez uma campanha sem maiores sustos na competição e ficou marcado por atrapalhar a vida dos grandes. Em oito jogos contra Santos, Corinthians, São Paulo e Palmeiras, o time sofreu apenas uma derrota, diante do São Paulo. Foram quatro empates e três vitórias, duas delas fora de casa sobre Santos e Corinthians. A vitória sobre o Santos no primeiro turno, por 4 a 2 (23-3-1995), derrubou o último invicto do campeonato. A do returno, por 1 a 0 (24-5-1995), foi a primeira contra o Santos na Vila Belmiro.

No empate em 2 a 2 com o Corinthians (8-4-1995), o Décio Vitta foi palco de filmagens da novela Irmãos Coragem, no intervalo. Na trama, o personagem Duda (Marcos Winter) havia acabado de trocar o Flamengo pelo Corinthians e o jogo contra o Rio Branco seria sua estreia, com a sua esposa, Ritinha (Gabriela Duarte), na torcida (ela ficou nas cativas). Reservas das duas equipes participaram das cenas sob o comando de 25 profissionais da Globo.
Durante o Paulistão, o clube recebeu um convite do Kyoto, clube que havia contratado Aritana, por empréstimo (17-1-1995), para disputar dois amistosos no Japão, que seriam os primeiros da história do clube fora do país. O clube japonês queria os jogos até abril, antes do início da temporada japonesa, e pagaria, além de uma cota, todas as despesas de transporte e hospedagem. Mas, como não acreditava que a federação alteraria a tabela do Paulistão para atender a um pedido seu, o clube descartou a ideia.
O Rio Branco viveu um grande ano nas categorias de base. No Campeonato Paulista de Aspirantes, a Copa João Jorge Saad, o time comandado por Arnaldo Traspadini garantiu vaga na decisão com cinco rodadas de antecedência. As finais estavam marcadas para Ribeirão Preto, na preliminar de decisão do Paulistão entre Palmeiras e Corinthians, mas o São Paulo, adversário do Tigre, recusou-se a jogar com a torcida inteira contra.
A federação cedeu aos apelos do clube e marcou os jogos decisivos para dias 8, no Pacaembu, e 13 de agosto, às 11h, no Décio Vitta. O Tigre fez um grande primeiro jogo e venceu por 3 a 1 em São Paulo, com dois gols de Marcelinho e um de Marcos Assunção. No segundo, o título era do Rio Branco até os 44 minutos do segundo tempo, mas um gol de Douglas levou o jogo para morte súbita, vencida pelo Tricolor com um gol contra de Rocha. Com Rogério Ceni fechando o gol, o São Paulo venceu por 3 a 1 e ficou com a taça.
O São Paulo não atrapalhou a vida do Rio Branco apenas nos aspirantes, mas também em outras três decisões, todas no mesmo dia (2-12-1995). Sob o comando de Wilson Carrasco, o Rio Branco enfrentou o Tricolor na final do Paulista de juniores. No primeiro jogo (25-11-1995), cerca de 300 torcedores foram ao Décio Vitta e viram o Rio Branco abrir 3 a 1, com grande atuação de Clébson, autor de dois gols. Mas o São Paulo buscou o empate em 3 a 3. Na volta, no CT da Barra Funda, o São Paulo fez 2 a 0.
No Paulista juvenil, o Rio Branco do técnico Diolei Candido venceu na última rodada o Ituano por 3 a 0, mas o São Paulo também venceu, pelo mesmo placar, o Botafogo, resultado que lhe deu o título e deixou o Tigre com mais um vice devido ao número de vitórias, já que os dois tiveram a mesma pontuação.
No infantil, São Paulo e Rio Branco se enfrentaram na última rodada da fase final, os dois com chances de título. O time do técnico Zé Pulga perdeu por 1 a 0, no Décio Vitta, e ficou com o vice. Sandro Hiroshi era o companheiro de ataque de Anailson, que não jogou a decisão porque havia sido convocado (14-11-1995) para a seleção brasileira sub-15 que jogaria o Festival Mundial das Crianças dos Cinco Continentes. O Brasil venceu na final a seleção de Togo nos pênaltis, com a cobrança decisiva – a sétima da seleção – sendo convertida por Anailson, autor de um gol no torneio, contra a China.
Anailson viveu um ano indo e voltando de seleções de base. Em outubro, passou dias treinando com a seleção brasileira sub-17, sob o comando do técnico Toninho Barroso, tornando-se o primeiro jogador atuando pelo Rio Branco a ser chamado pela seleção brasileira. Em quatro amistosos, contra o sub-17 de Vasco (2 a 2), Flamengo (2 a 0), Fluminense (5 a 0) e Botafogo (2 a 0), Anailson marcou um gol em cada, sendo que, nos dois primeiros, começou no banco.
O clube pagava, à época, de US$ 1 mil a US$ 2 mil para olheiros quando eles indicavam jogadores que fossem depois aprovados pelo clube. Borelli insistia que o clube precisava investir na base para, cada vez menos, precisar contratar jogadores de fora. O sucesso dos garotos não se repetiu no Brasileiro da Série C, quando o clube decidiu apostar na base dos aspirantes e não passou da 1ª fase.
A sede social ganhou uma bem organizada sala de troféus (2-8-1995), com cerca de 300 peças, a maioria passando antes por um processo de restauração. O clube mantinha o espaço, no segundo andar da sede, aberto a quem quisesse visitar, e seguia em busca de fotos dos presidentes para montar uma galeria, o que seria feito logo depois.
Um novo estatuto passou a vigorar no clube (1-8-1995). Após sete reuniões e cerca de 100 horas de estudos, acabou aprovado pelo Conselho Deliberativo. A principal mudança era em relação ao associado. No estatuto anterior, o sócio perdia a condição de dependente quando se casava. Como o clube dependia de o sócio informar seu casamento, decidiu mudar a regra.
Ao completar 18 anos, o dependente passaria a pagar 25% da mensalidade. Quando chegasse aos 24, perderia a condição de dependente, com direito a desconto para comprar um título próprio. Outras mudanças envolviam também o título remido especial.
Na eterna discussão interna entre social e futebol, o presidente do Conselho Deliberativo, Reinaldo Bernardi, garantiu que, em hipótese alguma, esse dinheiro iria para o futebol, apenas para as sedes social e náutica.
Os eventos na sede social, apesar dos problemas do local, seguiam a todo vapor. O grande show do ano foi com o grupo Mamonas Assassinas (4-11-1995), que, pela primeira vez, apresentou-se em Americana após 700 mil cópias vendidas em apenas dois meses. Os ingressos, a R$ 10 (sócio) e R$ 30 (não sócio), esgotaram-se rapidamente e 4,2 mil pessoas superlotaram a sede social.

O show, uma parceria entre Rio Branco e Rádio Vox 90 junto com empresários, durou 1h10 e teve uma menor de idade ganhando o prêmio que a Vox sorteou, uma Brasília amarela, ano 1978, com “rodas gaúcha” e “kit-farofa”, em alusão à música “Pelados em Santos”.
O Rio Branco abriu em agosto um concurso para escolher um novo hino do clube, com premiação de R$ 1 mil para o vencedor. O vencedor foi anunciado em cerimônia na sede social (4-11-1995), o professor de música Oséas Sass, do Jardim Progresso. “Esta canção mostra um clube cheio de aplausos e gritos. Mostra a intimidade do seu torcedor em pular, gritar e cantar em alta voz o nome do Rio Branco”, afirmou o músico, tecladista e saxofonista durante sete anos na Banda Militar do Exército de Campinas.
O hino original, do início do século, passou a ser considerado pelo Conselho Deliberativo como o hino de “honra e tradição”, enquanto o novo ainda precisou passar pelo crivo dos conselheiros antes de ser adotado.
Já havia algum tempo que Minão Vitta flertava com uma candidatura a presidente. Ela se tornou realidade em 1995, quando ele oficializou o sonho de seguir os passos do pai, Décio Vitta (13-10-1995). Edilberto de Paula Ribeiro, que havia sido candidato contra Borelli, voltou a cogitar uma candidatura, mas desistiu (27-10-1995), assim como o ex-presidente Fred Pantano, que resolveu não concorrer contra o amigo Minão.
A chapa encabeçada por Minão Vitta foi então oficializada (3-11-1995) como candidata única. Apenas 65 sócios – de um total de 4,5 mil com direito a voto – votaram na assembleia que aclamou a nova chapa (18-11-1995), em um dia que Minão classificou como o mais importante de sua vida.
Diante de 70 conselheiros e em pouco mais de meia hora, Minão Vitta foi aclamado presidente do clube (16-12-1995) para o biênio seguinte, já com três vice-presidentes definidos: Sérgio Luiz Meneghel Silveira (administrativo), Pedro Luiz Francischangelis (futebol) e Luciano Penachione (patrimônio). Também já havia sido definido (8-12-1995) que Cristóvão Borges, ex-jogador do clube, seria o gerente de futebol.
O grande objetivo de Minão era transformar o Rio Branco em futebol-empresa, algo na moda à época com o sucesso da Parmalat no Palmeiras. Curiosamente, o primeiro alvo em potencial da Parmalat no Brasil, antes de chegar aqui, foi justamente o Rio Branco, como revelou o jornalista Mauro Beting anos depois.
Em 1991, o presidente da Parmalat no Brasil, Gianni Grisendi, recebeu a missão da matriz na Itália de procurar um clube para firmar uma cogestão técnico-administrativa. A primeira ideia, devido à questão financeira, foi procurar uma equipe do interior de São Paulo. Chegaram então a dois nomes: Paulista e Rio Branco.
O Tigre havia acabado de subir de divisão e tinha o nome bem visto devido à boa estrutura do Décio Vitta, ao início de um trabalho com jovens jogadores e à boa localização de Americana, considerada rica e próspera.
Imaginou-se uma parceria interessante também em decorrência da colônia italiana na cidade, mas, levando-se isso em conta, pendia-se um pouco mais para o Paulista. Porém, o clube de Jundiaí tinha uma grande limitação: o nome, que lembrava o leite Paulista, concorrente da Parmalat. Por isso, o clube acabou sendo praticamente descartado à época.
Quando se tentava uma maior aproximação com o Rio Branco, dois conselheiros do Palmeiras entraram no negócio, Paulo Nicoli e Luiz Gonzaga Beluzzo. O clube caminhava para 15 anos de fila e precisava de dinheiro, Além disso, tinha uma profunda ligação histórica com a Itália. A política de um clube grande, o ambiente conturbado e um Conselho Deliberativo complicado eram os grandes empecilhos, que Nicoli e Beluzzo trataram de contornar, fazendo um meio de campo muito bem feito para que o acordo fosse aceito pelos conselheiros e pelo presidente do clube, Carlos Facchina.
O acordo foi assinado em 26 de março de 1992 e, além de tirar o Palmeiras da fila e colecionar taças, montou times inesquecíveis no Parque Antártica. “Diria que estaria bem mais próximo (o acordo de parceria) do Rio Branco do que de qualquer outro clube se não fosse a intervenção do Paulo Nicoli e do Luiz Gonzaga Beluzzo, que foram os homens que levaram a Parmalat para o Palmeiras”, conta Beting.
A Parmalat não veio anos antes e o Rio Branco acabou perdendo, após o Campeonato Paulista de 1995, o patrocínio da Nitroquímica, que estampou a marca Viscocel na decisão de aspirantes contra o São Paulo e depois alegou mudanças na empresa para não manter a publicidade (23-8-1995). Para o ano seguinte, o clube chegou a negociar com a Sharp, mas não houve acordo.
Apesar disso, devido à venda de jogadores, o clube fechou o ano no azul. Meneghel, vice de Borelli e futuro vice de Minão, afirmou que o objetivo do ano era reestruturar o setor administrativo, o que foi alcançado não apenas devido à venda de jogadores, como também graças a novos associados e reservas financeiras, o que fariam Minão assumir com R$ 1 milhão em caixa e com os salários que teriam de ser pagos no dia 5 de janeiro de 1996 já quitados.
Segundo Meneghel, as únicas dívidas eram com INSS e FGTS, herdadas segundo ele da administração anterior, mas que haviam sido parceladas para que fossem pagas em dois anos e meio. Mais uma vez, ficavam evidentes as rusgas entre as administrações de Borelli e Chico Sardelli, que havia sido nomeado vice de Comercialização e Relações Públicas da federação (12-1-1995) após o presidente Eduardo José Farah ter sido reeleito com mandato até o fim de 1998. “Eles tinham como meta levar o Rio Branco à 1ª Divisão e acabaram deixando de lado outras coisas”, alfinetou, no fim do ano, Meneghel.
Borelli chegou ao final de seu mandato já não mais como diretor financeiro da prefeitura, cargo que deixou em abril de 1995, quando assumiu a superintendência da Prodam. Além de administrar o Rio Branco, Borelli teve de conviver, durante o ano, com problemas com vereadores da oposição, principalmente com José Américo da Silva, o Jasa. Encerrando seu mandato, Borelli mandou construir, perto da entrada das cativas, o marco do acesso de 1992, um monumento para lembrar da conquista.
Em parceria com a Bradesco Administradora de Cartões de Crédito, o clube lançou (31-3-1995) o Rio Branco Bradesco Visa, um cartão de crédito como outros clubes já haviam lançado – o Corinthians foi o pioneiro e o Tigre, o 49º a lançar. Segundo o Bradesco, do total de 1,6 milhão de cartões de crédito do banco no país, 16% eram ligados a clubes de futebol. Com anuidade de R$ 39 (R$ 60 em caso de cartão internacional), o Rio Branco teria direito a 30% do valor, ou seja, R$ 11,70 por ano. Como a previsão era a de conseguir vender 5 mil, o clube estimava ter R$ 60 mil de faturamento.
