A década de ouro

Os anos 20 começaram com o Tigre derrotando os rivais impiedosamente, assim como havia feito no final da década anterior: 5 a 0 no Concórdia (São Paulo), 6 a 1 no Fluminense (São Paulo), 4 a 0 no Flor do Ipiranga e 3 a 0 no Santarritense. As boas atuações em campo levaram o clube a decidir (22-3-1920) pela filiação à Apea (Associação Paulista dos Esportes Atléticos), além de aumentar as mensalidades de Cr$ 1,00 para Cr$ 2,00 e a joia para Cr$ 3,00. As atas do clube daquele ano já trazem o nome aportuguesado, passando de Rio Branco Football Club para Rio Branco Futebol Clube.
Em 1921, o Tigre, que tinha mudado sua sede para a Rua Coronel Corrêa Pacheco, 55, disputou suas primeiras partidas fora do estado de São Paulo, contra o Uberaba-MG, e estreou em uma competição oficial no final daquela temporada, o Campeonato do Interior, inclusive reformando o seu estádio com o auxílio da Câmara de Campinas (Americana era um distrito de Campinas à época) para disputar a competição – em outubro daquele ano, o Rio Branco contratou uma empresa para fazer o nivelamento do campo.
Logo em sua estreia, o Tigre ficou com o título da Zona Paulista, o primeiro de sua história, após uma goleada de 5 a 2 sobre o Guarani, o que lhe valeu vaga na disputa das finais do Interior, quando não conseguiu repetir as boas atuações. Naquela temporada, o Tigre decidiu formar, em maio, terceiro e quarto times, já que o sucesso do clube atraía jogadores de várias partes do Estado. Além disso, o clube já começava a ser uma referência de lazer na cidade, inclusive organizando um campeonato interno do qual participaram cinco times (Cariocas, Mineiros, Paulistas, Paraná e Bahia).

No ano seguinte, os jogadores do clube foram isentos do pagamento de mensalidade (11-8-1922) e a diretoria decidiu, em reunião (12-9-1922), que eles precisavam começar a se fixar em uma determinada posição, parando com as constantes mudanças que ocorriam.
Os principais títulos dos primeiros anos de vida do Tigre viriam nos anos seguintes. Após conquistar novamente o título da Zona Paulista, o Rio Branco desta vez foi melhor nas finais do Campeonato do Interior de 1922, que aconteceram em 1923. Em 8 de abril, o Tigre derrotou o Taubaté por 2 a 1, no Parque Antártica, em São Paulo, e levantou a taça A. A. das Palmeiras, além de ganhar um diploma, algo comum na época. Com isso, ganhou o direito de disputar a Taça Competência, que reunia os campeões da Capital e do interior, sendo goleado pelo Corinthians por 5 a 0.





O sucesso do Rio Branco no interior já alimentava rivalidades com clubes próximos. O Carnaval de 1923 em Americana homenageou o grande Rio Branco de 1922, mas sem deixar de provocar os adversários. Um dos carros alegóricos trouxe um Tigre olhando para um Bugre (índio, mascote do Guarani) cabisbaixo, sob as suas garras.


A história de 1922/1923 repetiu-se na temporada seguinte. O título da Zona Paulista veio no final do ano, após vitória sobre o Velo Clube por 1 a 0, e o do Campeonato do Interior, em 10 de fevereiro de 1924, após empate sem gols com o Sorocabano. Na Taça Competência, novamente enfrentou o Corinthians, que venceu uma polêmica partida por 2 a 1.
O futebol já era visto com outros olhos em Americana, tanto que o Rio Branco fazia de tudo para agradar a seus jogadores. A diretoria, por exemplo, decidiu (11-9-1923) pela criação de uma caixinha beneficente, que consistia em destinar uma porcentagem das rendas dos jogos diretamente para os jogadores do clube. Naquele ano, o Rio Branco aceitou, pela primeira vez, uma mulher em seu quadro de sócios (11-12-1923): Haydée Brambilla, esposa do goleiro Aristides Pisoni e filha de Emilio Leon Brambilla. Além disso, inaugurou as arquibancadas de seu estádio.
Para homenagear o time bicampeão do interior, a diretoria decidiu confeccionar medalhas de ouro (15-2-1924) para os jogadores. A arrecadação do dinheiro ficou a cargo de Emilio Brambilla, que fez uma lista com vários nomes para conseguir a verba. Na festa pelo título, gastaram-se Cr$ 125,00 em pastéis para os jogadores. Cada diretor do clube foi convidado a contribuir com Cr$ 13,00. Para receber a taça de campeão de 1923, foi organizada uma festa no teatro central, que contou com coral de 20 vozes para cantar o hino do clube. Os jogadores levantaram a taça e receberam as medalhas.


Com o sucesso dentro de campo, o clube começou a impor regras mais rígidas a seus jogadores. Um novo regulamento foi registrado em ata (9-9-1924) e lido para que os jogadores assinassem. O regulamento era assim (grafia original):
- Os treinos são obrigatórios nas terças, quintas e domingos. Quem faltar na 1ª vez, terá 15 dias de suspensão; na 2ª, 30 dias; na 3ª, eliminação;
- É obrigatório treinar com uniforme;
- Os calções fornecidos pelo clube não podem ser utilizados fora dos treinos e jogos;
- A mudança de posição em treinos, sem a ordem do capitão, consiste em pena;
- Não podendo comparecer aos treinos, deve o jogador avisar por escrito a comissão esportiva;
- Nenhum jogador poderá jogar para outra entidade, sem o consentimento da diretoria;
- Incorrem penas severas o jogador que faltar o respeito ao capitão.

Além do título do Interior no início do ano, outros jogos ficaram marcados em 1924, como a vitória sobre o XV, em Piracicaba, por 6 a 4, e uma goleada sobre o União Barbarense por 4 a 0. Foi nessa época que começou a surgir a primeira grande rivalidade da história do Rio Branco, contra um time da mesma cidade, o Carioba.
Em 1925, o Tigre conquistou o título da 3ª Região do Campeonato do Interior justamente contra o rival, em um jogo com chuva de ovos podres nos automóveis de Americana que foram para Carioba.
A rivalidade com o Carioba produziu histórias curiosas nos anos 20. Em 1929, em crise financeira, o Tigre sofria dentro de campo. Aproveitando-se disso, o presidente do Carioba, João Bernestein, procurou o presidente do Rio Branco, Fortunato Basseto, para agendar um jogo para dez dias depois. Em boa fase, o Carioba contava os dias para ir à forra contra o rival. Só que a notícia chegou até Espírito Santo do Pinhal, mais precisamente aos ouvidos de Alfredo e Paschoal Vitta, que defendiam a Pinhalense. Imediatamente, os dois, sempre temidos pelos adversários, ofereceram-se para jogar.


O Tigre treinou forte terça e quinta-feira para o duelo. Na sexta à noite, Bernestein procurou Basseto em um bar onde funcionava a sede do Rio Branco para cancelar o amistoso.
“Nosso quadro não poderá enfrentar o Rio Branco nessa data. Temos receio que o senhor Alfredo Vitta machuque nossos jogadores. Se Alfredo e Paschoal não jogarem, nosso quadro estará em campo”, afirmou Bernestein, segundo relato da imprensa. Ele foi expulso do local e o amistoso não aconteceu.
A primeira grande fase da história do Tigre chegou ao fim com uma derrota por goleada para o Velo Clube, no início de 1926, resultado que deu ao rival o título do Campeonato do Interior e marcou o fim de uma era, com a saída de jogadores importantes que haviam levado o Tigre ao topo do interior. O Tigre passou de temido a um time facilmente batido, chegando a levar 10 a 0 do Guarani. O clube passou o restante da década sem colocar medo em ninguém.
Nos anos 20, com dificuldades para pagar o aluguel de sua sede na Rua 12 de Novembro, o Tigre resolveu se mudar para o seu estádio. Devido ao pouco espaço que tinha no local, os móveis foram provisoriamente guardados na casa de Olivio Nascimbem.
Naquele mesmo ano, 1926, foi formada uma comissão para arrecadar fundos para a construção de uma sede, no lado oposto à arquibancada. Foi o embrião da sede social, que demoraria ainda alguns anos para se tornar realidade.

