A parada e a volta
O Rio Branco não entrou em campo com sua equipe principal nos anos 60. Existem apenas registros de partidas dos veteranos do clube e alguns jogos do juvenil. Foi nos anos 60 que o Rio Branco mudou, pela última vez, de nome e a sede social ganhou força entre os associados com as constantes atividades sociais e esportivas que lá aconteciam.
Na ata de reunião de diretoria de 13 de dezembro de 1961, o clube foi chamado pela última vez de Rio Branco Futebol Clube. No registro seguinte, de 27 de dezembro de 1961, passou a ser Rio Branco Esporte Clube. Não existem menções em jornais ou mesmo nas próprias atas do clube oficializando a mudança, mas o Tigre mostraria, nos anos seguintes, que a alteração ocorreu para abrigar as mais variadas modalidades esportivas, não apenas o futebol, que nem mais existia para o clube naqueles anos.

Em julho de 1966, cogitou-se a volta do Rio Branco à 2ª Divisão, com o auxílio de comércio e indústrias locais. O Progresso (Nova Odessa), que disputava o equivalente à 4ª Divisão do futebol paulista, inclusive chegou a oferecer o seu estádio através de um contrato de aluguel. O campo era iluminado e atendia às exigências da Federação Paulista de Futebol. Mas as negociações não foram adiante e o Tigre só voltaria mesmo ao futebol após a fusão com o AEC (Americana Esporte Clube), em 1979.
Nos anos 70, durante a construção do Estádio Décio Vitta, existiu um time de futebol amador em Americana chamado Cultura Fantasma, formado apenas por sócios do Rio Branco. Com o futebol do Tigre parado, esse time passou a usar o nome do Rio Branco para enfrentar times completamente amadores, como a seleção de Monte Mor, o Guarany do Brás e o Estrela do Mar. Ou até mesmo outras equipes de Americana que estavam no profissionalismo, como o Vasco da Gama. Como eram partidas esporádicas com jogadores sem qualquer vínculo com o clube, em um completo amadorismo em plenos anos 70, esses jogos não são contabilizados, já que o próprio clube considerava o seu departamento de futebol desativado nessa época.



Com o futebol do Rio Branco parado, o principal clube da cidade era o Esporte Clube Vasco da Gama, que decidiu mudar de nome para representar a cidade. Em uma reunião (8-2-1976), na Avenida Dr. Antonio Lobo, o Dragão de Americana passou a se chamar Americana Esporte Clube, o AEC. Após muitos comentários, a assembleia decidiu pela mudança de nome do clube. Na votação, apenas o vascaíno de coração Altair Ferreira Martins foi contra a mudança de nome, devido ao amor que tinha pelo Dragão de Americana. Mas, depois da reunião, pediu ao presidente, Roberto Monzillo, para trocar seu voto, aceitando também a mudança.
O objetivo era atrair adeptos e pessoas dispostas a ajudar pelo fato de o clube usar o nome da cidade. Ficaram decididos, na assembleia, os dois uniformes a serem usados pelo clube: o principal, com camisas brancas (golas e números vermelhos), calções azuis e meias cinzas ou azuis, e o uniforme reserva com camisas azuis, calções brancos e meias brancas. O AEC usava um campo de Carioba para treinar.


Enquanto isso, o Rio Branco seguia construindo o seu estádio, que demorou para sair do papel. No projeto, toda a área de entrada do estádio era destinada a ser a nova sede social do clube, o que nunca se tornou realidade, embora dinheiro tenha sido investido no local. O clube de fato começou a olhar com carinho o projeto de uma nova sede social na área do estádio (onde hoje está o que se chama de elefante branco, logo na entrada da Carmine Feola), quando a prefeitura resolveu alargar a Rua Fernando de Camargo, o que provocou um corte de 10 metros de largura por toda a extensão da sede social. Era voz corrente que a antiga sede do Tigre não resistiria a essa demolição, podendo vir abaixo toda a estrutura.
O Rio Branco resolveu então usar o dinheiro pago pela prefeitura na desapropriação dessa faixa da sede social para a construção de sua nova casa na área do estádio. A desapropriação, aliás, foi uma batalha entre clube e prefeitura. Até que, em assembleia realizada em 11 de junho de 1971, ficou decidido o que o Rio Branco exigiria da prefeitura para que a desapropriação não virasse uma batalha judicial.
O prefeito Abdo Najar concordou com praticamente todas as exigências do clube, que pediu Cr$ 326 mil; a demolição, a princípio, apenas do muro e da marquise, sendo que o prédio seria derrubado apenas após o Carnaval de 1972; toda a demolição e construção do novo muro, reparos e fechamentos de vãos seriam por conta da prefeitura, assim como a mudança das instalações elétricas e hidráulicas.
1979: A fusão com o AEC

Longe dos gramados desde 1959, o Rio Branco articulou seu retorno a partir do final de 1978. Em reunião da diretoria do Tigre (27-3-1979), o presidente do AEC, Nelson Bellan, expôs a difícil situação que o clube atravessava e que não teria condições de se manter na Divisão Intermediária, propondo uma fusão com o Rio Branco. “Nós forçamos uma fusão. Não tínhamos campo nem associados, o que o Rio Branco tinha. Não havia como continuar no futebol profissional”, contou Bellan, em entrevista em 2013, aos 82 anos.
Bellan entrou para o mundo do futebol levado por Antonio Meneghel, irmão de Carroll Meneghel, ex-prefeito de Americana. Certo dia, Antonio o levou para ver um jogo do Vasquinho e Bellan propôs a ele que começassem a trabalhar para que o Vasquinho deixasse de ser um time de bairro para representar a cidade. Foi por isso que depois o time passou a se chamar AEC.

Uma reunião entre diretores e conselheiros de Rio Branco e AEC praticamente definiu a fusão entre os clubes (3-4-1979), condicionada apenas à venda de 200 cadeiras cativas no estádio do Tigre para arcar com as despesas com o futebol. Cada cadeira custava Cr$ 10 mil (dez parcelas de Cr$ 1 mil) e 110 já haviam sido vendidas. O Rio Branco passou então a estudar mudança no estatuto, que não previa mais esporte profissional.
A união entre Rio Branco e AEC começou a ser sacramentada oficialmente quando o presidente da FPF, Nabi Abi Chedid, e o assessor jurídico Murilo Antunes Alves deram o aval à fusão em reunião com dirigentes americanenses em São Paulo (16-4-1979). Estiveram na Capital, pelo Rio Branco, o presidente Delcio Dollo e o vereador Décio Vitta. O AEC esteve representado por Alfredo Spinola de Melo e Bellan. Ficou então estabelecido que a vaga do AEC na Intermediária de 1979 seria ocupada pelo Rio Branco.
O Tigre começou a se ajustar internamente. Em assembleia geral (17-4-1979), o novo estatuto, com a inclusão do futebol profissional, foi aprovado. O AEC ofereceu ao Tigre uma receita fixa mensal que conseguiu após vender parte das 200 cadeiras cativas do Riobrancão, enquanto o Rio Branco assumiu as dívidas de Cr$ 402 mil do novo parceiro. Ficou acertado que o valor da dívida ficaria congelado até o final do ano. Em maio, mais 30 cadeiras foram colocadas à venda.


O amistoso da volta do Rio Branco ao profissionalismo foi então marcado, tendo como adversário o Noroeste (13-5-1979). O estádio ganhou redes novas e empresários ajudaram a promover o tão esperado retorno. A Confecções Vitta anunciou que premiaria o autor do primeiro gol com uma camisa. Para o melhor jogador em campo, o Depósito de Tecidos Fatex daria um corte de tecido, a mesma oferta da Têxtil Santa Elza, este com destino a ser definido pela diretoria do Rio Branco. À equipe vencedora, uma caixa de champanhe oferecida por Manoel Mendes, o Neco, diretor de esportes do Rio Branco.
Para a preliminar, às 13h, o Rio Branco tentou um jogo de juvenis contra o Palmeiras, sem sucesso. Cogitou-se então uma partida entre juvenis do próprio Rio Branco, A e B, mas o jogo acabou sendo entre o Tigrinho, do técnico Zé Pulga, e o Juventus, do bairro São Domingos. Com gols de Edinho, o Tigre venceu por 2 a 1.
As solenidades no Décio Vitta foram abertas pela Corporação Musical Nazareno Maggi. Em seguida, desfiles de mascotes do Tigre, da equipe de veteranos e de todas as modalidades esportivas do clube (à época, além do futebol, futebol de salão, tênis de mesa, tênis, vôlei, basquete, natação, tiro, hóquei sobre patins e ciclismo). Após o Hino Nacional e queima de fogos, quando ainda faltava uma hora para a bola rolar, veteranos do Rio Branco (entre eles Roviglio, Guilherme, Garcia, Ranieri, Chico e Coleta) entregaram, ao som do hino do clube, de Germano Benencase, as camisas de jogo aos atletas que iriam atuar, todos ainda vestidos com as do AEC, azuis e brancas. A bênção coube ao padre Victor, da Paróquia São Domingos.
Com camisas brancas com listras finais verticais pretas, meias e calções pretos, o Rio Branco voltou, às 15h30, a jogar uma partida após 20 anos, diante de cerca de 11 mil torcedores, muitos deles sentados no famoso barranco, atrás do gol de entrada do estádio, e com uma cópia do hino do clube e a foto dos campeões de 1922 em mãos. O Noroeste venceu, por 1 a 0, e o Rio Branco deixou o campo reclamando bastante da arbitragem.
O único gol do jogo foi de Mardoni, que, em posição duvidosa, encobriu o goleiro Toni no segundo tempo. Os dois times já estavam com dez jogadores, já que Rangel e Carlos se desentenderam e acabaram expulsos ainda no primeiro tempo, aos 40 minutos. O jogo foi duro e teve mais um jogador expulso, Reginaldo, por jogo violento no final da partida. A melhor chance do Rio Branco foi uma bola na trave em chute de Dudu, no segundo tempo.






O Rio Branco teve dificuldade para conseguir adversários para amistosos após enfrentar o Noroeste porque os times da Divisão Intermediária queriam jogar em casa para ter renda. Tentou enfrentar o Ginásio Pinhalense, mas não conseguiu. Quase fez um duelo local no domingo seguinte (20-5-1979) contra o Sete de Setembro, que se candidatou a enfrentar o Tigre. No mesmo dia em que o Rio Branco perdeu para o Noroeste, o Sete havia derrotado o Atlético Ararense em amistoso por 3 a 2. O time havia acertado jogar as suas primeiras partidas oficiais na temporada no Décio Vitta, para conseguir recuperar o gramado do Victorio Scuro, mas o duelo local não aconteceu.
O Rio Branco aproveitou o fato de que alguns jogadores estavam insatisfeitos na Internacional de Limeira e reforçou a equipe para a Divisão Intermediária. Chegaram Carlinhos, Klein, Caldeira e Luiz Moraes, em meio a reclamações de que a diretoria da Inter havia prometido um bom prêmio pela conquista do título da principal divisão de acesso e teria pagado bem menos após a conquista. O Tigre chegou até a sonhar com Tião Marino, ídolo da Inter, mas o atacante acabou no São José, onde repetiu o sucesso que teve em Limeira.

Na Divisão Intermediária, o Tigre fez uma boa 1ª fase, terminando na 2ª posição, mas foi muito mal na 2ª fase e começou a desmanchar o time para economizar após ser goleado pelo São José por 5 a 0 (10-10-1979).
O retorno do clube que fez sucesso no interior de São Paulo nos anos 20 virou notícia na revista Placar, em junho daquele ano. Segundo a revista, o AEC, que mantinha um elenco numeroso (36 jogadores) e uma folha mensal de Cr$ 250 mil, não tinha mais condições de se manter. O clube não tinha patrimônio nem quadro social. A solução foi a fusão com o Rio Branco, um clube com patrimônio avaliado em Cr$ 150 milhões e uma arrecadação mensal de Cr$ 500 mil. Bellan explicou à revista os problemas enfrentados no ano do retorno. “O problema é que, quando a fusão foi sacramentada, o Rio Branco já estava com seu orçamento para este ano definido. O jeito foi colocar à disposição do futebol 230 cadeiras do estádio, que estão sendo vendidas por mil cruzeiros mensais. Assim, temos 230 mil para uma folha de 180 mil. No próximo ano, o futebol já terá uma verba própria”, explicou.


